domingo, 20 de setembro de 2015

Modafinila (Stavigile): os comprimidos que tiram o sono



Sono. Nós nunca tivemos tanto controle sob essa necessidade biológica.

Esqueça o velho pó de guaraná que até seu avô usava para ficar acordado. Esqueça as gôndolas que enfileiram as latinhas de energéticos. Também não falo dos comprimidos de Ritalina que seu amigo com déficit de atenção usa. Hoje, a ciência consegue dominar o sono de modo muito mais sofisticado.

E por que dormir menos? Bom, se o lema da sociedade atual é "tempo é dinheiro", então venhamos e convenhamos que sono é uma grande perda econômica.

Imagine o que significa ganhar uma hora a mais por dia, que seja. São 365 horas vividas a mais ao fim de um ano. Ou como se você tivesse ganhado 15 dias a mais para fazer o que quiser - ser aprovado num concurso, num vestibular ou abrir o próprio negócio.

Mas controlar o sono não é apenas um capricho do mundo capitalista e de estudantes e empreendedores competitivos. Sono não significa perda de tempo ou perda econômica. Sono pode significar até mesmo perda humana.

Observe o exemplo da aviação moderna. A fadiga é uma problemática e pilotos são propensos à ela. Eles devem lidar com longas horas de trabalho, uma rotina de sono caótica e viagens através de diferentes fusos horários.

É a receita perfeita para arrancar os ponteiros de qualquer relógio biológico.

Justamente a falta de sono de uma única pessoa pode significar a morte de centenas. Não é exagero. Venha comigo para o Aeroporto do Galeão do dia 31 de maio de 2009, às 19h29.

Como o sono mata
À esse horário, zarpava o Airbus 330 em direção à Paris.

Já ouviu aquela frase de "Nem Deus afunda o Titanic"? Independente de ela ser verídica ou não, poderíamos dizer algo parecido para o Airbus 330. Era um super avião incapaz de cair. Contava com um sofisticado sistema automático, computadorizado e quase totalmente autônomo.

Marc Dubois e o Airbus 330: tragédia pode ter sido motivada, em parte, por causa da fadiga do comandante
Algumas horas depois, o comandante do voo, Marc Dubois, de 58 anos, entregou os pontos para Morfeu. Marc Dubois sentia sono. "Eu não dormi muito essa noite passada. Uma hora - isso não é o suficiente", disse o comandante. Foi para seu beliche.

O outro co-piloto, mais jovem, de 37 anos, também extremamente cansado, dormiu.

Na cabine, o controle do Airbus 330 ficou nas mãos do co-piloto mais inexperiente, Pierre Bonin, de apenas 32 anos. O relógio de Pierre marcava umas 23 horas da noite.

Aquele deveria ser o momento mais tranquilo da viagem. Mais de 200 passageiros sobrevoavam a negritude do Atlântico, em altitude e velocidade de Cruzeiro.

De repente, começou uma forte tempestade. As temperaturas baixíssimas daquela altitude congelaram as sondas que mediam a velocidade do avião. Sem os dados de velocidade, o Airbus saiu do piloto automático e devolveu o comando do avião para Pierre Bonin.

Por falta de destreza ou de treinamento (ou talvez também sentia sono?), Pierre cometeu e insistiu num erro fatal. Em vez de baixar o nariz da aeronave, como manda o protocolo, Pierre manteve a subida.

Arte da queda do Airbus 330.
Foto: Der Spiegel
O outro copiloto acordou, mais de 1 minuto depois, com o barulho das sirenes que indicavam a perda de sustentação da aeronave. Igualmente incapaz de solucionar o problema, ele chamou o comandante Dubois.

Três minutos já haviam se passado desde da queda do piloto automático. Sonolento, Dubois não entendia o que estava ocorrendo. E não tomou nenhumou atitude.

"Air France 447, thank you", agradeceu Marc Dubois. Essas foram as últimas palavras que o mundo ouviu do Airbus 330 antes que ele se chocasse inteiro contra a superfície do Oceano Atlântico.

"Se o comandante Dubois tivesse atrasado o seu cochilo, talvez a história tivesse um final diferente", reconheceu o investigador-chefe do acidente do Air France 447, Alain Bouillard. Apesar de aventar a possibilidade, Bouillard acredita que a fadiga do comandante não tenha sido determinante.

Será mesmo?

A  ciência já é capaz de dominar o sono
Mas e se, em vez de 1 hora de sono, Dubois tivesse tido as oito que são costumeiramente recomendadas para adultos? E se, em vez de ter partido para seu beliche, Dubois tivesse permanecido no seu posto, no comando do avião? 

Teria ele feito uma simples inclinação do bico da aeronave em 3 a 5 graus para baixo, em vez de empinar o nariz do avião em 18 graus como Pierre fez? Não fosse por uma das nossas necessidades fisiológicas mais básicas, o sono, Dubois teria reconhecido o problema e salvo a vida de 200 pessoas?

Essas perguntas ficam só no campo das conjecturas, é claro. Mas Dubois era reconhecido como um dos pilotos mais experientes da Air France. Como, então, não se aventurar nessa hipótese?


E ocorre que a ciência já consegue dominar o sono. Não conseguimos aniquilar a necessidade de dormir. Mas temos uma uma solução temporária. Um fármaco que seria a salvação das noites mal dormidas ou para maratonas sem dormir - afasta a fadiga, desconcentração e a sonolência.

O fármaco consegue promover a sensação de ter acabado de sair de um sono reparador - mesmo que você esteja sem dormir há mais de trinta horas. E tudo isso sem a necessidade de repor o sono mais tarde.

Pode parecer ficção científica, mas eu estou falando de um medicamento que está na prateleira da farmácia mais próximas (sim, é controlado / não, não compre pela Internet).

Na verdade, o remédio não é novo: já é vendido na França há mais de vinte anos. É a modafinila (nas terras tupiniquins, Stavigile, do laboratório Libbs).

Para entender todo o potencial da modafinila, é preciso viajar para a França do século passado. Lá, nos laboratórios da farmacêutica Lafon, um médico criou uma droga que se transforma em modafinila no fígado, a adrafinila.

E, tal como um cientista maluco, ele mesmo resolveu experimentá-la. Os resultados desse experimento maluco logo mostraram que aquela substância era diferente de tudo que o homem já havia sintetizado.

Cobaia de sua própria droga
Estamos, de certo modo, atrasados no entendimento do sono - essa é uma das áreas mais jovens da ciências. Não é exagero: até metade do século 20, a teoria que tinha mais força no meio científico era de que o cérebro se desligasse totalmente durante a noite, para descansar.

Nós já sabemos que não é bem assim e que o cérebro não "desliga". Na verdade, muito do que sabemos é graças a um francês: o neurobiologista Michel Jouvet. Nas décadas de 50 e 60, ele esteve a frente nas pesquisas sobre o sono. Em 1963, Jouvet organizou o principal simpósio internacional sobre o tema, na França.

Michel Jouvet, o pesquisador que sintetizou e usou a adrafinila
pela primeira vez
No entanto, para quem curte nootrópicos, Michel Jouvet é muito mais lembrado pelo seu trabalho como diretor de um laboratório da farmacêutica Lafon.

Lá, Jouvet realizou um grande avanço científico: sintetizou uma molécula que é aclamada com uma das mais grandiosas descobertas da ciência francesa.

Nos anos 70, Jouvet trabalhava com uma série de compostos benzidrílicos. Diz a "lenda" que ele mesmo usou um deles, a adrafinila (que no fígado, é convertida na modafinila - esta, mais segura e por isso usada até hoje).

Ao usar seu próprio cérebro como cobaia, Jouvet percebeu que aquelas moléculas que ele mesmo inventara tinham lhe transformado numa espécie de super homem.

Ele estava totalmente alerta e até mais produtivo. E, o melhor de tudo: a adrafinila não tinha lhe causado nenhum efeito colateral aparente.

Seus estudantes, bacharelados em Medicina, também experimentaram a nova droga e, mais tarde, relataram ter permanecido por mais de 60 horas sem pregar os olhos. O mais estranho é que eles mantinham-se tão alertas e funcionais como alguém que tivesse acabado de acordar.

Um estudo alemão mais tarde confirmou  o "experimento" dos estudantes de Jouvet. Esse estudo submeteu jovens adultos a 60 horas de privação de sono. Metade dos jovens recebeu placebo e outra metade recebeu modafinila, a cada oito horas.

Resultado: o grupo que recebeu a modafinila "manteve níveis satisfatórios de vigília", diferente do grupo que usou o placebo.

Modafinila: a molécula do bom despertar


O que os alunos de Jouvet estavam experimentando se tratava do prelúdio do desenvolvimento de uma nova geração de medicamentos. Algo diferente de todos os outros que existiam até então. Nasciam os eugeróicos

Essa palavra estranha pode ser traduzida do grego com algo como estimulante agradável ou bom despertar. A razão de tamanha singularidade é que os eugeróicos apenas estimulam quando há necessidade de estímulo.

Em entrevista para para o Science.Mic, um usuário de modafinila, nomeado pela reportagem como "Tim" explicou da melhor forma. Tim diz: "Quando você usa a modafinila e está cansado, ela te faz sentir normal. Quando você usa a modafinila e não está cansado, ela te faz sentir super-normal".

Porém, Tim enumera que consegue ficar mais concentrado com a modafinila. Como se fosse uma pessoa mais funcional e atento. Mas, diz ele, tais efeitos são "sutis". E é essa sutileza de efeitos que torna a modafinila e os eugeróicos tão distintos.

Os eugeróicos seriam capazes de te deixar tão desperto como se você tivesse acabado de ter o melhor sono da sua vida. (Mas, na verdade, você não dorme há 30 horas). O X da questão está no peculiar modus operandi da droga: eugeróicos não te deixam "ligadão" e ansioso como acontece com outros estimulantes como as anfetaminas, a cafeína e o metilfenidato (Ritalina).

E mais: diferente dos estimulantes citados acima, em que há a necessidade de repor o sono perdido, a modafinila não parecia causar nenhum efeito rebote.

Adeus, Ritalina!
Nervosismo e agitação geralmente acompanham
estimulantes clássicos, como o metilfenidato, a
Ritalina. Isso pode levar à dilatação das pupilas.
Para você ter uma ideia do avanço que a modafinila representa frente aos estimulantes clássicos, como a Ritalina, analise comigo dois estudos científicos. Não, eu prometo que não será chato: cientistas dando anfetaminas para idosos não poderia ser algo enfadonho.

Esses dois estudos compararam como a modafinila e como as anfetaminas interferiam no sono.

O primeiro estudo lidou com idosos de idade média de 68 anos, e o último teve voluntários muito mais jovens. Nos dois casos, os voluntários recebiam 1) modafinila 2) ou anfetamina 3) ou placebo.

Hora de analisar os resultados: os grupos que usaram a anfetamina tiveram uma piora na manutenção do sono, mas quem usou a modafinila não enfrentou esse problema.

Aí está: estimulantes clássicos diminuem a qualidade e o tempo de sono, o que leva à exaustão e a necessidade de usar cada vez mais estimulantes. Esse ciclo vicioso não ocorre com a modafinila.

Além disso, a modafinila causa bem menos alterações na pressão arterial e nas funções do sistema cardiovascular que a anfetaminas.

E quanto à capacidade para viciar? Considere que a Ritalina e o Adderall (uma mistura de sais de anfetamina) são classificados, nos EUA, como substâncias Schedule II. São remédios com "alto potencial para abuso e possibilidade de dependência psicológica e física severa".

A modafinila, vendida como Provigil, é, para efeitos de comparação, benigna. É classificada junto das substâncias Schedule IV, que, embora controladas, possuem "pouco potencial para abuso" e "risco limitado de dependência física e psicológica".

Como tem leve atuação no sistema dopaminérgico (envolvido nos prazeres e vícios), a modafinila pode, sim, viciar. Mas o consenso é de que esse potencial para dependência é bem menor que o observado nos estimulantes clássicos.

Modafinila: o novo armamento dos campos de batalha
Dentro do coquetel de drogas que as cobaias de uniforme usam, está a modafinila - usada, eficazmente, para manter combatentes acordados
Jouvet sabia da significância do que ele havia inventado. Na frente da imprensa e de generais de Paris, durante uma Conferência de Defesa Internacional, Jouvet cravou a última estaca que faltava para alavancar o interesse mundial pela modafinila. 

Jouvet lançou a seguinte frase, frente à uma grande plateia: "a modafinila é capaz de manter um Exército de pé por três dias e três noites, lutando".

O Pentágono estava a todos ouvidos para o francês. Não só as Forças Armadas dos EUA, mas a de vários países se atiraram na empreitada que prometia criar soldados infatigáveis. Não consegue entender o porquê de tanto interesse?

Pôster da Segunda Guerra Mundial.
"Pilotos! Muitas missões?
Não consegue se manter acordado no ar?
Tome anfetaminas"
É que, diferente da vida civil, em batalhas prolongadas, não há como agendar um momento para cochilo. Não importa o quanto exaustão você esteja sentindo.

Talvez não haja alguém para assumir seu turno. Talvez seja preciso ficar a postos num momento crucial da batalha. Não importa: é extremamente vantajoso maximizar a força humana.

Campanhas longas tem a vigília como um pré-requisito.  E os efeitos colaterais desastrosos das anfetaminas tornavam-na, perceptivelmente, uma opção ruim.

Usada extensivamente na Segunda Guerra Mundial, a anfetamina mostrou-se altamente viciante e prejudicial para a saúde. Era preciso de doses cada vez maiores para se atingir o mesmo efeito e, nas vezes em que se queria dormir, era necessário usar um sonífero.

Agora, o que estava sendo colocado em jogo era uma droga que apregoava manter a vigília por muitas e muitas horas. E manter soldados com seu rendimento físico e cognitivo normal. Tudo sem efeitos colaterais sérios.

Foi como uma bênção. E as Forças Armadas não se limitaram a estudar a modafinila, mas colocaram-na para uso. As primeiras provas com soldados foram espetaculares - permitindo manter homens de pé por 40 horas, sem desfalecer.

O sono é inimigo número um das missões militares que exigem concentração prolongada
Tão espetaculares que a modafinila foi administrada para tropas francesas enviadas para a Guerra do Golfo em 1991. Cerca de 1000 soldados receberam a droga, mesmo quando na época ela estava apenas na fase de testes. A modafinila só passou a ser comercializada em 92.

Com administrações de doses regulares, os soldados franceses permaneciam acordados por mais de três dias. Ao veículo IPS notícias, um veterano da guerra de 1991 disse: "Para mim, como para muitos camaradas, nos davam o medicamento a cada oito horas por ordem de nossos comandantes".

Mas os franceses não são os únicos obcecados com o controle do sono. Na terra do tio Sam, há gastos de 100 milhões de dólares anuais em pesquisas voltadas para, entre outros, a modafinila e o combate dos sintomas da falta de sono. Tais pesquisas estadunidenses buscam o aumento do desempenho dos seus soldados.

Os americanos também tiveram suas cobaias uniformizadas. À Força Aérea norte-americana, a modafinila já foi administrada durante a invasão ao Iraque em 2003. A droga permitia a esses pilotos a manutenção da vigília em operações de longa duração - caso das incursões aéreas em território inimigo.

Corujas da aviação

É na aviação militar que a modafinila tem uma das suas aplicações mais relevantes, Em missões, alguns voos exigem que os pilotos mantenham a atenção por horas a fio. Isso não pode ser totalmente conquistado por estimulantes convencionais. As anfetaminas aumentam a ansiedade e a impulsividade, o que compromete a tomada de decisões.

Só a modafinila, um eugeróico, consegue estimular um piloto, trazendo-lhe a sensação de "foco calmo" - vigília e lucidez, sem agitação. É o ideal para manter um militar por horas nos céus, em voos prolongados e dificultosos que requerem concentração constante.

A modafinila, para os aviadores, significa menos mortes. E os seus efeitos positivos no desempenho de aviadores privados de sono já foram bem demonstrados.

Em 1999, um estudo norte-americano administrou doses de modafinila a pilotos que estavam há 40 horas sem dormir. Esses pilotos utilizavam simuladores de voos de helicóptero durante a ação da droga.

Pelos resultados do estudo, ficou bem claro que a modafinila foi extremamente eficaz para aumentar a sensação de alerta e contrapor os efeitos negativos da privação de sono.

Outro estudo norte-americano, em 2004, chegou à mesma conclusão. Aviadores militares, que pilotavam o Air Force F-117, passaram por 37 horas de privação de sono. Aqueles que usaram a modafinila após 17h, 22h ou 27h sem dormir, tiveram menor fadiga e menor declínio de desempenho que o grupo que tomou placebo.

Além de reduzir a sensação raiva e a depressão, associadas com a privação de sono, a modafinila foi capaz de aumentar a sensação de vigor, confiança e alerta. Esses benefícios foram mais notáveis após 24 a 32 horas sem dormir.

E se a modafinila for o próximo "cafezinho"?
E se a modafinila fosse tão bem aceita quanto um cafezinho?
Diante disso tudo, fica uma pergunta: e se a modafinila fosse uma droga social, tal como o café?

Afinal de contas, com o próprio cafezinho, muitas vezes a intenção é se manter acordado. E isso é socialmente bem aceito. Se manter-se acordado é tão crucial para nós, então por que não fazer isso do jeito certo? Com uma droga que tem bem menos efeitos colaterais que a cafeína.

A nossa relutância de romper o status quo e o nosso medo de mudanças fazem com que o uso da modafinila por pessoas saudáveis seja quase ficção científica.

Infelizmente. 

Não é acabar com o sono - é controlá-lo
Se manter a vigília é uma obrigação social, por que não abraçar as ferramentas que permitem atrasar o sono?
Não advogo a aniquilação do sono para todo o sempre. Pensar que a modafinila substitui o sono é bobagem. Até porque períodos longos de privação de sono são invariavelmente ruins para a saúde cerebral. Diferente da ideia em voga até a segunda metade do século passado, o sono não "desliga o cérebro totalmente para descanso".

Na verdade - perdoem a digressão - o sono tem uma miríade de propósitos. O sono permite a formação de memórias de longo prazo. Logo, é essencial para a consolidação do aprendizado daquilo que se viu ao estar acordado.

O sono também permite apagar o excesso de memórias (aquelas que não são tão importantes assim), abrindo espaço para que você continue aprendendo. Seu cérebro não desliga no sono: na verdade, faz uma grande faxina, põe ordem na casa, deixa tudo organizado para que seu funcionamento, após esse período, esteja no ápice.

A modafinila consegue "enganar" o cérebro, fazendo-o acreditar que está super acordado. Mas, na verdade, é tapar o sol com uma peneira: todos os processos fisiológicos importantíssimos que dependem do sono não ocorreram.

Portanto, a grande questão é afastar a necessidade de dormir, por algumas horas, quando a vigília é essencial. Atrasar o sono por algumas horas. Ou, então, matar todos os sintomas incômodos como falta de concentração e de energia que sucedem a privação de sono - quando dormir não é mais uma opção.

A ciência sabe como dominar o sono, ainda que de modo paliativo. E Jouvet nos garantiu fazer isso modo eficiente e seguro. Numa sociedade que funciona 24 horas e que a vigília é, muitas vezes, essencial, a modafinila cai como uma luva. Por que não usá-la?

Qual é o grande entrave? Qual é o obstáculo que impede civis que trabalham por turnos de terem melhor qualidade de vida e manterem sua produtividade quando necessário? Principalmente quando governos de países desenvolvidos fornecem a droga aos seus soldados?

Essas perguntas não são de modo algum retóricos. Esses pontos de interrogação não pretendem fechar um debate - mas, sim, iniciá-lo! É claro, há implicações éticas no uso da modafinila. Mas quem poderá negar que há benefícios? Então, é preciso discutir o tema em sociedade.

E se Dubois tivesse usado a modafinila?
A fadiga entre pilotos é comum - e isso assusta. Um estudo mostrou que um em cada cinco pilotos sentiam que seu desempenho estava comprometido em voos por causa do cansaço, pelo menos uma vez por semana.
Apenas para ilustrar, deixo você, leitor, com uma suposição. Podemos imaginar que o Voo Air France 447 não tivesse seu fim trágico no oceano Atlântico se apenas o comandante Dubois tivesse engolido um comprimido de modafinila.

Talvez, apenas talvez, ele teria permanecido no cockpit, à postos e, com a ajuda da química, ter mantido uma concentração artificial. Unindo isso a sua expertise, Dubois poderia ter percebido o problema que acometia a aeronave e jogado o bico da mesma alguns graus para baixo.

Se apenas nós não fossemos tão resistentes com o uso de um medicamento com mais de duas décadas de uso na França e tão extensivamente estudado...

5 comentários:

  1. Oi Matheus, postei um comentário para você semana passada, dizendo que havia começado a tomar Modafinil por indicação médica.
    Coincidentemente, vc postou isso hoje, e tenho uma notícia um pouco assustadora hoje:
    no terceiro dia de uso, acordei com parte da minha perna INTEIRA cheia de profusões, manchas e pus. Foi o horror.
    Agora, estou sob observação, após duas noites no hospital. Os médicos, inicialmente, suspeitaram que fora uma alergia, mas agora estão investigando que eu esteja com herpes zoster ou algo chamado de Síndrome de Steven Johnson, uma das possíveis reações à modafinila. É assustador.
    Fato é que, pesquisando pela internet, é possível perceber que reações de pele graves a esse medicamento costumam ser meio frequente. Acabei mergulhando fundo no assunto e, pelo que percebi,o conceito de "raro" para as reações alérgicas é um pouco "subjetivo demais" para esta droga.
    A bula brasileira alerta, simplesmente, que em caso de manchas na pele, a pessoa deve suspender o uso e procurar a emergência ou o seu médico.
    A bula do mesmo medicamento, em outros países, é mais explícita: há relatos de modafinil causando síndrome de steven-johnson, TEN e outras doenças de pele. Recentemente, o FDA obrigou a incluir isso na bula gringa.
    É bom salientar que a sindrome pode ser causada por um antibiótico qualquer, mas a quantidade de pessoas que tem se queixado da dita cuja ou de problemas na pele, em algum momento, quando tomam modafinila, é absurda.
    Enfim, fica aqui o meu alerta e meu relato. Coloco-me a disposição para mandar algumas fotos de como está minha perna, inclusive, se vc quiser.
    Fiz minha escolha e prefiro simplesmente dizer não a esse medicamento mais. Parece-me uma roleta russa cada vez que vc vai ingerir. Carregar uma síndrome de steven johnson, que não tem cura e cuja morte é horrenda, pro resto da vida por causa do risco que envolve um medicamento, melhor não. Estou acompanhando também o drama da minha esposa e da minha mãe, em orações, angústia e tristeza torcendo para que essa porcaria desse remédio não tenha me deixado com a síndrome e que isso seja algo menor.
    Não existe "almoço grátis" para a biologia, mas a conta de alguns medicamentos às vezes pode vir salgada demais.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Felippe. Sinto muito que você tenha sido hospitalizado. Eu espero que a sua saúde tenha melhorado nessas últimas 24 horas.

      Os seus médicos já tem algum diagnóstico conclusivo? Eu pergunto isso porque me chama a atenção que, apenas três dias após o início do tratamento com modafinil, você já tenha tido uma reação alérgica tão evidente. A Síndrome de Stevens Johnson possui uma progressão mais lenta. O pródromo inclui sintomas do que parece ser uma forte gripe: febre, tosse, irritação nos olhos e na garganta. E, em geral, as manifestações na pele só aparecem de 1 a 3 semanas após o uso do medicamento causador.

      O FDA também reporta apenas 2 casos de Síndrome de Stevens Johnson associadas com o modafinil - das milhões de pessoas que utilizaram a droga (entre dezembro de 1998 a janeiro de 2007). Outras 4 reações cutâneas severas foram descritas nesse mesmo período.

      No entanto, como você muito bem disse, reações de pele são comuns com o modafinil. Só que, dessas reações dermatológicas, as de maior incidência são benignas - que, embora possam ser dolorosas e assustadoras, regridem com a descontinuação do medicamento.

      Felippe, tudo isso me leva a acreditar que não seja (felizmente) um caso de Stevens Johnson (um risco, que como você ponderou, ocorre com outros medicamentos, inclusive o ibuprofeno, o paracetamol e o diclofenaco). A breve descrição que você fez dos seus sintomas não condiz com a progressão sintomática da Stevens Johnson - e essa reação dermatológica específica, apesar de muito grave, é também muito rara.

      Se isso estiver dentro do seu alcance, eu gostaria que você me enviasse as fotos. Meu email é: matheuscdcp@gmail.com

      Espero que esse período de preocupações seja breve e que a sua recuperação seja rápida. Estimo as suas melhoras de saúde. Por favor, dê notícias quando puder. O seu relato é muito bem-vindo.

      Abraços.

      Excluir
  2. Modafinila e melhor que piracetam e colina ??

    ResponderExcluir
  3. Ola Companheiros ! Espero que o caso do colega acima esteja resolvido e o mesmo encontre-se saudavel.
    Colega escritor do blog, desejo assim como outros que conheço mais informações sobre o uso do piracetam, pois é aparentemente um medicamento que ajuda na concentração entre outros beneficios, gostaria de saber se ele tem mesmo uma função que melhore a cognição, concentração entre outros. Obrigado e acompanho seu blog sempre. Abraços

    ResponderExcluir