sábado, 15 de abril de 2017

Fosfatidilserina: um nootrópico poderoso

"Melhor nootrópico"?
No universo de substâncias capazes de potencializar a performance intelectual - os nootrópicos -, a fosfatidilserina se destaca das demais. "Qual é o melhor nootrópico?" é uma pergunta que, você pode imaginar, eu recebo muito. Minha resposta é sempre: "qual é o melhor nootrópico para quem?". 

O melhor nootrópico é aquele mais apropriado para uma pessoa em determinado tempo. Veja: para alguém extremamente esgotado mentalmente, a sulbutiamina pode ser um milagre. Mas para alguém que simplesmente necessita de uma maior memória verbal, o piracetam seria muito mais indicado. O ideal é conhecer o perfil de cada nootrópico e verificar se ele é adequado a você. Você pode fazer isso lendo o meu livro, o Turbine Seu Cérebro (clique aqui), onde eu comento sobre mais de 20 deles.

Mas se eu realmente fosse forçado a responder "qual o melhor nootrópico?", desconhecendo o usuário que irá usá-lo, eu lhe diria que é a fosfatidilserina. Sim, difícil de pronunciar à primeira tentativa, mas um incrível suplemento. E, para essa análise, estou considerando os parâmetros: o espectro de ação (ou seja, quantas habilidades intelectuais a substância é capaz de beneficiar - memória, foco, humor...), a segurança (os riscos de efeitos colaterais) e a eficácia comprovada (o que os estudos dizem sobre essa substância).

Colocando tudo isso na balança, a fosfatidilserina vence. Talvez seja uma substância desconhecida para você - eu diria que, no meio, é até um nootrópico subestimado. Pois o seu cérebro é rico em fosfatidilserina: essa substância compõe a membrana que reveste e protege os seus neurônios. E a suplementação com a fosfatidilserina exógena melhora as funções cognitivas humanas. Dizer que a lista de benefícios é "grande" seria pouco.

As faculdades mentais que a fosfatidilserina otimiza são: a formação da memória de curto-prazo, a consolidação das memórias de longo-prazo, a habilidade de recordar memórias previamente registradas, o aprendizado, a capacidade de focar a atenção e se concentrar, a habilidade de raciocinar e de resolver problemas, habilidades verbais e de comunicação. Também melhora as funções locomotoras, em especial reações rápidas e reflexos. Tem também um papel na redução do estresse.

Se parece milagroso demais para ser verdade, convido-te a conhecer um pouco mais sobre a fosfatidilserina e o que a ciência diz sobre ela.


Um rápido background para entender a fosfatidilserina
Como eu lhe contei, a fosfatidilserina está ricamente presente nas membranas dos neurônios. E, para entender como a fosfatidilserina age, é preciso conhecer as funções dessas membranas. 

A membrana plasmática é uma película oleosa que embala suas células nervosas, ao mesmo tempo controlando a entrada de nutrientes e a saída de toxinas. Ou seja: é como um guarda que garante que apenas coisas boas entrem nos neurônios e somente coisas ruins saiam.

Estrutura da membrana plasmática. Em roxo e vermelho, proteínas de membrana. Em azul e cinza, fosfolipídios.
Mas isso não é tudo. A membrana participa da comunicação e transmissão nervosa. Isso é porque na membrana ficam flutuando várias proteínas (na imagem acima, as estruturas vermelha e roxa) - que são responsáveis por receber os neurotransmissores (como serotonina e dopamina, por exemplo).

Não fosse por essas proteínas, os neurotransmissores não teriam os seus efeitos e sinapses não seriam formadas. Essas proteínas receptoras ficam imersas e "dançando" nessa película oleosa que é a membrana plasmática . Se a membrana fosse uma estrutura rígida, esse baile não ocorreria. E a facilidade de movimento das proteínas que favorece as comunicações entre neurônios - que garante que o neurotransmissor se encaixe no receptor.

São os fosfolipídeos (em cinza e azul na imagem acima) - como a fosfatidilserina - que garantem essa característica fluida, que é tão necessária para o desempenho cognitivo normal. A fosfatidilserina constitui de 2 a 20% do total da massa fosfolipídica plasmática e intracelular humana.

A fosfatidilserina otimiza a comunicação entre neurônios
Você não precisa raciocinar muito para perceber que a fosfatidilserina melhora a capacidade cerebral Ela desempenha papéis importantes em praticamente todas as etapas da neurotransmissão, isto é, a comunicação entre neurônios.

Representação da liberação de neurotransmissores
e a recepção destes em neurônio adjacente
Já foi descoberto que a fosfatidilserina é necessária para que um neurônio libere os seus neurotransmissores (isso significa mais dopamina, serotonina, acetilcolina e outros neurotransmissores). A fosfatidilserina é fundamental no processo de exocitose - quando vesículas recheadas de algum neurotransmissor são secretadas para agirem em neurônios vizinhos [1].

Após a liberação do neurotransmissor, ele pode agir em receptores proteicos que ficam na membrana dos neurônios adjacentes. É assim que formamos uma sinapse. Como foi dito, a fosfatidilserina também é peça chave na fluidez da membrana e, com isso, otimiza e garante essa interação entre neurotransmissor-receptor [2].

O que ocorre em seguida é a geração de um impulso nervoso, que irá percorrer o neurônio e estimulá-lo a liberar neurotransmissores, como num efeito dominó. Até na condução nervosa, a fosfatidilserina é fundamental. É que o axônio é revestido pela chamada bainha de mielina - uma espécie de isolante elétrico, que garante a condução efetiva dos impulsos. E a bainha de mielina tem em sua composição a fosfatidilserina. [3].
A significância disso tudo é que são as interações entre os neurônios que garantem a preservação das nossas habilidades cognitivas, como atenção e raciocínio lógico. Já ouviu a máxima neurons that fire together, wire together - ou, neurônios que se comunicam, se conectam? É essa a chave para compreender o quanto a fosfatidilserina é capaz de fazer.

A fosfatidilserina é uma peça elementar em todos esses processos nervosos dependentes da membrana nervosa. Ela melhora a liberação de neurotransmissores, a recepção dos neurotransmissores e a condução dos impulsos nervosos. Como um todo, a fosfatidilserina ajuda a construir redes sinápticas. Essa é a base para a formação dos aprendizados e para a consolidação das memórias de longo prazo.

Neurônios velhos - ou "enferrujados" pelo excesso de inflamação e radicais livres - são como casados há décadas: eles não se comunicam mais tão bem. A fosfatidilserina abre uma via de comunicação. 

Já foi comprovado que em ratos idosos, mas "intactos" (sem doenças), a fosfatidilserina suplementada aumenta a comunicação entre os neurônios, através do aumento da fluidez das membranas plasmáticas [3].

Aumento da transmissão acetilcolinérgica
Num estudo, homens e mulheres saudáveis que suplementaram com a fosfatidilserina se submeteram a um eletroencefalograma e outros exames. Os resultados dos testes apontaram para um aumento da neurotransmissão colinérgica – isto é, na comunicação nervosa com a acetilcolina [4].

Isso é de especial interesse porque a acetilcolina está intimamente envolvida com o processamento cognitivo. De maneira simples, uma investigação brasileira que investigou os papéis da acetilcolina na cognição, diz:
A acetilcolina e importante para funções cognitivas diferentes como aprendizado, memória e atenção [5]

Além do estudo que o uso de fosfatidilserina aumenta a neurotransmissão colinérgica em humanos, há outras evidências que corroboram o aumento do uso da acetilcolina. 

Em ratos idosos e saudáveis, a suplementação com a fosfatidilserina foi capaz de reduzir sinais neurológicos comuns ao envelhecimento - como um déficit na liberação de acetilcolina e um déficit no funcionamento das vias colinérgicas. Ainda, a fosfatidilserina foi capaz de aumentar a síntese de acetilcolina e de dopamina no córtex cerebral [3].

Isso é ainda mais significativo porque um aumento de acetilcolina nessa parte específica do cérebro – o córtex cerebral – pode estar relacionado com uma facilitação da concentração e inibição das distrações. Segundo uma revisão da literatura: 
(A) evidência foi revisada, indicando que aumento na atividade de inputs ao sistema colinérgico cortical representa o principal componente do aparato neuronal mediando aumentos no esforço de atenção.
Há evidência para sugerir que um aumento na liberação de acetilcolina no córtex pré-frontal medial contribuem para uma ativação dos mecanismos arquitetados para combater a deterioração do desempenho da atenção [6].
Melhora da transmissão dopaminérgica

Os fármacos voltados para o tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção (TDA) agem de modo a aumentar os níveis de dopamina numa região do cérebro, o córtex pré-frontal. A dopamina é um mensageiro químico que é crucial para a capacidade de concentração e para a motivação (mais sobre a dopamina aqui).

A suplementação com a fosfatidilserina já se demonstrou capaz de beneficiar a liberação de dopamina - acredita-se que isso explique porque ela é capaz de amenizar os sintomas do TDA [7]. Esses benefícios aos pacientes com TDA são discutidos mais a frente.

Estudos em humanos saudáveis
Um estudo investigou a suplementação da fosfatidilserina em 18 jovens, de idade média de 22,5 anos, saudáveis. Eles recebiam 400 mg de fosfatidilserina ou placebo por 14 dias. [8]. 

Após o fim dessa primeira sessão de 14 dias, os voluntários passaram por alguns testes a fim de determinar os efeitos da suplementação. Em seguida, aqueles que haviam recebido a fosfatidilserina passaram a receber o placebo e vice-versa. Após mais 14 dias, os voluntários passaram novamente por testes.

Aumento da capacidade cognitiva

A fim de analisar a função cognitiva dos voluntários, o seguinte teste foi utilizado: os voluntários eram apresentados a um número aleatório de 4 dígitos. Eles deveriam, durante dois minutos, subtrair 7 do número aleatório e continuar realizando subtrações de 7 em 7. Esse simples teste aritmético permite medir a velocidade (tempo para cada cálculo) e a precisão dos voluntários (número de cálculos corretos).


O teste cognitivo mostrou diferença significativa entre o grupo placebo (representado pela barra preta) e o grupo da fosfatidilserina (representado pela barra cinza) - eles levavam menos tempo para realizar um cálculo correto. 

A suplementação com a fosfatidilserina aumentou em 20% a agilidade para realizar corretamente cálculos aritméticos. Comparado ao placebo, a fosfatidilserina diminuiu os erros de cálculos em 39%. Ela também aumentou as quantidades de cálculos corretos em 13%.

Redução do estresse e mente mais calma



Outras pesquisas também demonstraram evidências de que a função cognitiva pode ser aprimorada com a suplementação com a fosfatidilserina. Um estudo alemão (realizado por Baumeister e colegas) contou com 16 voluntários saudáveis que suplementaram durante 42 dias com 200 mg de fosfatidilserina ou placebo. 

O estudo observou que, após indução de estresse, a atividade do eletroencefalograma do grupo que suplementou com a fosfatidilserina indicava um estado mental mais relaxado que o grupo placebo. 

Em outro estudo, também controlado por placebo, pesquisadores avaliaram os efeitos da fosfatidilserina no desempenho de jogadores de golfe. Seguidos 42 dias, num protocolo de suplementação com 200 mg de fosfatidilserina foi notada melhora estatisticamente significativa na performance dos jogadores.


As barras brancas representam os grupos (à esquerda, placebo e à direita, o da fosfatidilserina) antes dos 42 dias de suplementação; as barras pretas representam-os após os 42 dias. 
A suplementação com fosfatidilserina (OS), quando comparado ao placebo aumentou de modo significativo – o que é observado nas barras pretas – a precisão das tacadas de golfe. Os resultados são indicativos de maior concentração e melhores habilidades locomotoras. 

O estudo também notou que os praticantes de golfe tiveram uma percepção reduzida do estresse quando suplementaram com a fosfatidilserina. 

Cientistas especulam [8] que a melhora no desempenho dos praticantes de golfe que usaram fosfatidilserina esteja, potencialmente, relacionada ao efeito relaxante observado no estudo feito por Baumeister. “É possível que uma mente relaxada possa ser mais capaz de focar em tarefas de esporte que requerem muita concentração”. 

Ainda, os pesquisadores concordam que “a suplementação com a fosfatidilserina é um meio eficiente para aumentar a função cognitiva de estudantes universitários jovens e saudáveis”.

Efeitos benéficos no déficit de atenção
O exemplo clínico da falta de atenção é o TDA – Transtorno de Déficit de Atenção – ou TDAH, quando há hiperatividade. Em pacientes com TDAH, há dificuldade de manter a atenção numa única tarefa e controlar o próprio comportamento. É de especial interesse verificar os efeitos da fosfatidilserina nesse transtorno – o que nos dá maior clareza para julgar se ela é um bom nootrópico para auxiliar no foco.

Em um estudo de Hirayama e colegas, foi examinado o efeito da suplementação com fosfatidilserina em 40 crianças com déficit de atenção que tinha de 4 a 14 anos [11]. As crianças foram aleatoriamente designadas a suplementar com a fosfatidilserina (200 mg por dia) ou usar um placebo, durante dois meses. 

Ao fim do estudo, foi notado que houve uma melhora significativa dos sintomas de déficit de atenção no grupo que suplementou com a fosfatidilserina. Enquanto o grupo placebo não observou qualquer melhora nos sintomas, aqueles que haviam suplementado com a fosfatidilserina experimentaram melhores pontuações em testes que examinavam a atenção e a impulsividade. 

Mudanças de comportamento também foram notadas somente no grupo que suplementou com a fosfatidilserina. Eles tiveram “melhores comportamentos em sala de aula e melhores habilidades sociais”. As crianças que fizeram uso da fosfatidilserina passaram a andar e conversar menos durante as aulas – sintomas comuns ao TDAH.

[7] Mazzari, S. and A. Battistella, Phosphatidylserine effects on dopamine release from striatum synaptosomes. In: Multidisciplinary Approach to Brain Development. Elsevier North Holland Amsterdam, 1980: p. 569-570.

10 comentários:

  1. Alguém já experimentou?

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  2. Ola Matheus. Meus parabens pelo blog e por compartilhar suas pesquisas e experiências. Já li o seus livro e sempre acompanho seus posts. Estudo para concurso, e preciso reter muita informação. Tomei por alguns dias o Piracetam e gostei. Sei que não pode prescrever medicamento. Porém, so para eu entender, o fosfatidilserine tem principios ativos similares ao Piracetam,? Seria interessante utilizar os dois juntos otimizando o processo de aprendizagem?

    Obrigado.

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  3. Olá! Eu também estudo para concursos. Seria esse um suplemento recomendado? Alguém já usou?

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  4. Fala Matheus,
    Antes de tudo, parabéns pelo conteúdo sensacional dos seus artigos. Bem escritos e bem fundamentados.
    Te escrevo pq estou muito interessado em adquirir alguns dos produtos da empresa americana ONNIT. Minhas perguntas são:
    Qual a sua opinião sobre o alpha brain e os outros produtos dessa marca?
    Eles já estão sendo comercializados no Brasil? (com aprovação da ANVISA?)
    abs
    Armando

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    1. Todos os ingredientes vc encontra separados por um melhor preço... Eu não utilizaria um composto.
      BTW, um bom começo seria a BACOPA (um dos ingredientes deste nootropico).
      Abs

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  5. Ola Matheus. Muito obrigado pela matéria. Vc sabe se o uso da fosfatidilserina com a bacopa monnieri é incompatível?

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  6. qual o site que posso comprar esse fosfalidilserina

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  7. ola mateus quais os remédio que vc me indica

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  8. Comprei o meu PS100 Jarrow hoje pelo site evitamins (site garantido). Deve chegar em 20 dias. Depois posto depoimento.

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