quarta-feira, 12 de maio de 2021

Efeitos cognitivos do Pycnogenol (pinheiro-marítimo francês)


OBS: o Pycnogenol é um fitoterápico sob prescrição médica. Este artigo apenas descreve os estudos acerca do Pycnogenol - não devendo ser usado como fins de diagnóstico ou tratamento de doenças ou condições de saúde. Consulte seu médico antes de usar qualquer medicamento.

Definição

Pycnogenol ® é reconhecido como um dos mais poderosos antioxidantes naturais. Esse é o nome comercial para um extrato fitoterápico – derivado da casca de um pinheiro chamado Pinus pinaster (pinheiro-marítimo francês), que é rico em flavonoides. Os principais componentes bioativos do Pycnogenol são: polifenóis, especificamente unidades mono e oligoméricas de ácido cafeico, ácido ferúlico, catequina, epicatequina e taxifolina. Esses compostos são prontamente absorvidos após ingestão oral e seus níveis são observados por até 14 h no sangue [1].

Efeitos vasculares

Entre os muitos efeitos clínicos do Pycnogenol, está a sua ação na dilatação os vasos sanguíneos, por meio de uma melhora da função do endotélio – uma camada de células que regulam o relaxamento dos vasos sanguíneos. É o que descreve um ensaio clínico randomizado e duplo-cego publicado no European Heart Journal. Pesquisadores descobriram que pacientes com doença arterial coronariana que receberam 200 mg/dia de Pycnogenol por 8 semanas tiveram uma melhora significativa do fluxo sanguíneo arterial comparado a um grupo que recebeu placebo [2].

Tal efeito mediado pelo Pycnogenol permitiria um melhor aporte sanguíneo, oxigenação e transporte de nutrientes por todo o corpo, inclusive para o cérebro, segundo pesquisadores da Universidade de Swinburne (Austrália). Eles explicam que “essa ação de relaxar os vasos sanguíneos e torná-los mais flexíveis não apenas beneficia o cérebro, mas também reduz o estresse do sistema cardiovascular e de todo o corpo, devido a uma melhor circulação” [3]. 

Estudos in vitro ajudam a entender a engrenagem por trás dos efeitos vasculares do Pycnogenol. Pesquisadores da Universidade de South Florida descobriram que mecanismo parece ser a estimulação da atividade da sintase endotelial do óxido nítrico – uma enzima que produz óxido nítrico, famoso vasodilatador natural [4]. O Pycnogenol até mesmo se contrapôs aos efeitos vasoconstritores da adrenalina e noradrenalina – envolvidas na resposta de “luta ou fuga” e disparados em situações de medo e estresse. 

Ações antioxidantes

Contudo, essa é apenas uma das faces do Pycnogenol. O extrato conta ainda com uma notável ação antioxidante, capaz de serenar o estresse oxidativo – um fenômeno comparável ao enferrujamento dos metais ou ao apodrecimento das maçãs. No cérebro, a oxidação também ocorre – podendo danificar o DNA, proteínas e membranas. E “o cérebro humano é altamente suscetível aos danos oxidativos”, como afirmam os pesquisadores da Universidade de Swinburne [3]. 

Eles explicam os motivos: o cérebro tem um apetite voraz por oxigênio, que serve para “queimar” glicose e manter sua atividade intensa. Um efeito colateral do seu metabolismo pujante é a produção de substâncias oxidantes. Além disso, o cérebro é riquíssimo em gorduras poliinsaturadas (PUFAs, como ômega 3 e ômega 6). Assim como a manteiga fica rançosa fora da geladeira, essas gorduras também podem sofrer “peroxidação”, quando atacadas por substâncias oxidantes. A menor reserva de mecanismos antioxidantes no cérebro, comparado a outros órgãos, também é apontada como pivô [3]. Antioxidantes, como o Pycnogenol, podem ser úteis em frear o estresse oxidativo. Mas, em termos práticos, o que esse bioquimiquês todo significa? 

O estresse oxidativo tem sido apontado como uma das causas de um declínio da capacidade intelectual. Pesquisadores da Universidade de Chieti-Pescara (Itália) apontam que “é possível que em profissionais estressados e muito ativos o aumento do estresse oxidativo possa ser tanto o resultado quanto a causa de alterações temporárias, subclínicas (...) nas funções cognitivas, que afetam de modo significativo o estilo de vida, desempenho e possivelmente mesmo a vida pessoal (...). A observação de um aumento no estresse oxidativo, associado com alterações mínimas nas funções cognitivas e atenção (...) é um fator interessante a se considerar” [5].

Ensaios clínicos sobre os efeitos do Pycnogenol nas funções cognitivas

Entra em cena o Pycnogenol. Os pesquisadores italianos analisaram os efeitos do uso de 150 mg/dia do extrato nas funções mentais de profissionais saudáveis, entre 35 a 55 anos, com “estresse oxidativo elevado”, mas com outros testes laboratoriais normais. O estudo foi publicado Journal of Neurosurgical Sciences . Após 3 meses, esses adultos tiveram uma queda significativa – na média, 30,4% – nos níveis de substâncias oxidativas, comparado a um grupo que não recebeu Pycnogenol. Somado a isso, o uso do extrato melhorou significativamente a memória de trabalho e episódica, atenção sustentada e funções executivas. Outro impacto positivo do Pycnogenol foi na execução de tarefas do dia-a-dia, como lidar com dinheiro e resolver problemas; além de melhorar a performance em tarefas profissionais. Quem usou Pycnogenol teve melhora em parâmetros de humor, como maior alerta e contentamento e menor ansiedade [5].

Resultados semelhantes foram notados num estudo que avaliou crianças com TDAH. De início, elas apresentavam maiores danos oxidativos no DNA quando comparada a crianças sem esse diagnóstico. Contudo, a suplementação com o Pycnogenol por 1 mês foi capaz de reduzir a oxidação do material genético, além de elevar os níveis totais de antioxidante no plasma. Esses efeitos vieram acoompanhados de uma melhora da atenção em tais crianças [6]. 

Outro exemplo vem de um grupo no outro extremo da idade. Pessoas saudáveis, entre 55 a 70 anos, receberam Pycnogenol por 12 meses. O extrato derrubou em 28% os seus níveis de estresse oxidativo – não houve redução num outro grupo que não recebeu Pycnogenol. Além disso, aqueles que consumiram o extrato por um ano tiveram uma melhora em índices de declínio cognitivo, na execução de tarefas do dia-a-dia e nas funções cognitivas [7]. 

Como se não fosse o bastante, outros pesquisadores descobriram que em um grupo de jovens universitários saudáveis, uma intervenção de 8 semanas com Pycnogenol (100 mg/dia), associado a “um plano de saúde padronizado”, resultou em melhoras na atenção sustentada, memória e funções executivas. Estudantes nesse estudo que estavam usando Pycnogenol também demonstraram melhorias em parâmetros de humor (alerta, contentamento e menor ansiedade) e tiveram um desempenho melhor nos exames universitários que o grupo controle [8].

Ação na inflamação

O leque de ações é ainda mais ampliado ao se considerar que o Pycnogenol exibe alguns efeitos anti-inflamatórios. O extrato aparenta inibir a expressão de genes que causam um aumento da inflamação (ativados por um fator de transcrição chamado NF-κB), segundo estudo ex vivo com plasma humano [9]. 

Conclusão

Esse rol de efeitos tem chamado a atenção dos cientistas, embora sejam iniciais. Os pesquisadores da Universidade de Swinburne concluíram que “evidências convergentes surgem que os efeitos biomoduladores do Pycnogenol melhoram vários mecanismos que podem sustentar a cognição, incluindo processos vasculares, anti-inflamatórios, neuroprotetores e antioxidantes. A pesquisa sobre a capacidade do Pycnogenol em melhorar as funções cognitivas está crescendo com ensaios clínicos preliminares indicando benefícios em vários domínios cognitivos, incluindo atenção, memória e funções executivas” [3].

Referências

[1] Single and multiple dose pharmacokinetics of maritime pine bark extract (Pycnogenol) after oral administration to healthy volunteers – https://link.springer.com/article/10.1186/1472-6904-6-4

[2] Effects of Pycnogenol on endothelial function in patients with stable coronary artery disease: a double-blind, randomized, placebo-controlled, cross-over study – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22240497/

[3] Assessing the Efficacy and Mechanisms of Pycnogenol® on Cognitive Aging From In Vitro Animal and Human Studies – https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fphar.2019.00694/full#B20

[4] Endothelium-dependent vascular effects of Pycnogenol – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9781917/

[5] Pycnogenol® improves cognitive function, attention, mental performance and specific professional skills in healthy professionals aged 35-55 – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24675223/

[6] Effect of polyphenolic extract, Pycnogenol, on the level of 8-oxoguanine in children suffering from attention deficit/hyperactivity disorder – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17015282/

 [7] The COFU3 Study. Improvement in cognitive function, attention, mental performance with Pycnogenol® in healthy subjects (55-70) with high oxidative stress. – https://europepmc.org/article/med/26635191

[8] Pycnogenol® supplementation improves cognitive function, attention and mental performance in students – https://europepmc.org/article/med/22108481

[9] Inhibition of NF-κB activation and MMP-9 secretion by plasma of human volunteers after ingestion of maritime pine bark extract (Pycnogenol) – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1413525/

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