sábado, 28 de setembro de 2019

Noopept: relatos de uso x o que a ciência sabe

ATENÇÃO: esse artigo não incentiva nem endossa o uso de Noopept, que não tem registro na Anvisa. Trata-se de uma discussão do que se sabe atualmente sobre seu uso e efeitos.

Medicamento russo, o Noopept é pregado como elixir da inteligência. Veja o que a ciência diz.

"Alguém me contou sobre esse nootrópico, chamado Noopept que é 1000 vezes mais forte que o piracetam - o nootrópico original". Foi assim que Grega Gostincar e o Noopept se conheceram. Grega é fundador de uma empresa norte-americana de venda de nootrópicos (melhoradores cognitivos).

Ele não se deu convencido de primeira sobre o poder do Noopept. 1000 vezes mais poderoso? "Isso não pode ser verdade! Como seria possível?" - conta que essa foi sua reação inicial.

Grega: "Muitas pessoas confirmam que se sentem bem melhor, além de sentir mais foco"

Mas Grega cedeu diante da soma de relatos de que o Noopept seria capaz de melhorar o "desempenho cerebral de forma dramática". Após algumas pesquisas, decidiu tentar por si mesmo.

E acabou engrossando o coro dos fãs do Noopept. Diz ele: "É um ótimo melhorador cognitivo. Definitivamente melhora o foco". Grega não notou benefícios na memória - outra vantagem atribuída à droga - mas surpreendeu-se com os efeitos positivos do Noopet no humor.

"Falar com pessoas é extremamente mais fácil"
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Fallon, entusiasta de nootrópicos também nos EUA, reforça a versão de Grega. Ele sente que o Noopept gera um "hiperfoco". Descreve um efeito dual: estimulante e relaxante. O Noopept lhe proporciona serenidade, mas ao mesmo tempo lhe deixa "mais alerta".

Fallon, da Go Nootropics
"Falar com pessoas é extremamente mais fácil", diz, citando uma redução da ansiedade social acompanhada de melhora da fluidez verbal.

Contrário a Grega, ele nota que Noopept melhorou sua memória - que era um pouco enferrujada. Fallon conta que sofria de uma dificuldade em recordar onde deixou objetos. Após o Noopept, sentiu que foi capaz de evocar lembranças sutis, como o som de seus óculos de sol caindo em algum lugar. Com isso, foi capaz de reverter a sua "amnésia".

A ciência: o que é o Noopept e para que ele serve?
Estrutura molecular do Noopept - desenho engenhoso
Um grupo russo pariu o Noopept nos anos 90. Gravidez planejada: o desenho molecular foi cuidadosamente arquitetado com o objetivo de criar uma substância para melhorar o funcionamento mental. 

Para isso, fabricaram em laboratório uma substância com estrutura análoga ao do piracetam, usando os aminoácidos prolina e glicina no esqueleto da molécula. O piracetam, como explico em meu livro, é uma substância dos anos 1960 que, segundo relatos, melhora a memória e o raciocínio.

E em que pé está o uso do Noopept hoje?
Décadas depois, o Noopept é legalmente vendido nas farmácias de países do antigo bloco comunista, indicado no tratamento de doenças que cursam com a deterioração das habilidades mentais e do humor.

No Ocidente, como vimos em relatos, é amplamente usado - apesar de não ser aprovado por agências sanitárias, incluindo a Anvisa, aqui no Brasil.

Parte daquele grupo de cientistas segue estudando e publicando vários artigos sobre seu "filho" - e, orgulhosos, alegam que o Noopept merece o título de nootrópico.
"Similar ao piracetam, o Noopept demonstra amplos efeitos - desde a estimulação da memória e aprendizado até o aumento da proteção neuronal contra agentes nocivos", alegam.

1000 vezes mais potente que o piracetam: o que isso realmente significa?
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A potência do Noopept não tem a ver com a intensidade dos seus efeitos
Mas e a história de mil vezes mais potência que o piracetam, que é tão alardeada? Sim, isso é tecnicamente verdade - mas é totalmente distorcido.

Em farmacologia, a potência tem a ver com a dosagem. Simplesmente, o Noopept é mais "compacto": 5 miligramas de Noopept tem efeito semelhante a mais ou menos 5000 miligramas de piracetam - quando os dois são comparados em alguns testes em animais.

Mas o Noopept não promove "1000 vezes mais memória", ou "faz o mesmo que o piracetam com intensidade mil vezes maior". Essa visão é fantasiosa.

Só que se o Noopept "dá no mesmo" do que o piracetam, por que é interessante? É que as doses ativas de piracetam são cavalares. Em doses de 4,8 gramas, pensa-se que o piracetam poderia melhorar a memória. 4,8 gramas de Noopept seria uma overdose - os benefícios para a memória estão na faixa das miligramas.

Salva-vidas neuronal
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Uma pilha de artigos científicos demonstra de forma consistente que o Noopept é um agente poderoso na proteção da saúde do cérebro. É um composto interessante, que exibe um perfil de escudo contra toxinas e outras agressões. Sua ação neuroproteção se estende ao papel de salva-vidas, restaurando a função mental já deteriorada.

Porém, a maior parte é de estudos iniciais - feitos em animais. Neles, o Noopept restaurou os danos provocados pela falta de circulação sanguínea e oxigenação ao cérebro, inclusive salvando neurônios da morte. São resultados promissores para investigações em pacientes com AVC ("infarto cerebral).

O Noopept ainda melhora a memória espacial e reduz a neurotoxicidade em modelos de mal de Alzheimer - ele desinflama o tecido nervoso. O Noopept também é capaz de abolir completamente o efeito de drogas amnésicas.

Trata-se de um espectro bem amplo de atividades: a ação neuroprotetora do Noopept não é restrita a uma agressão neurológica específica.

Em humanos: psicoestimulante e ansiolítico
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Esses efeitos do Noopept de "super-guardião do cérebro" foram confirmados em algumas pesquisas com pacientes que padeciam de alguma doença que compromete as funções mentais. Muito material não foi traduzido do russo.

A pesquisa mais acessível é de uma intervenção com Noopept em pacientes que estavam num meio-termo entre a saúde e a demência franca - com sintomas emocionais e intelectuais como resultado de trauma cerebral o doenças circulatórias.  reverteu sintomas como humor deprimido, agitação, perda de vigor, amnésia e falta de concentração.

Após duas semanas, o Noopept reduziu as variações de humor e a irritabilidade. Ele melhorou a duração e qualidade do sono - mas ao mesmo tempo, aumentou a disposição física e mental, reduzindo também a apatia e sonolência diurna.

Os cientistas apontaram, diante disso, uma ação mista e "equilibrada": o Noopept teve um efeito de estimulante cerebral ("atividora") e de reduzir a ansiedade (ansiolítico).

Ao longo das semanas, o Noopept também melhorou os prejuízos de memória e atenção encontrados nesses pacientes.

Quanto aos efeitos colaterais, a droga mostrou-se segura. Comparado ao piracetam, o Noopept foi melhor tolerado.

Mas e em pessoas saudáveis?
A escalada do interesse pelo Noopept e a sua disseminação no Ocidente esbarram em dois  problemas. Além de não ser regulado por agências sanitárias, o seu apelo é maior entre jovens que desejam ampliar a capacidade cognitiva - uso que é especulativo e não encontra respaldo na ciência.

um material de qualidade discutível em russo que fala de propriedades "adaptógenas" - ou seja, de proporcionar maior resistência ao estresse - entre jovens de 20 a 24 anos.

Na investigação, os jovens foram expostos a extremos de temperatura. O Noopept, através de um efeito psicológico, garantiu uma adaptação rápida diante do frio e calor intenso. Também levou a um melhor desempenho físico em temperaturas elevadas.

Ótima escolha para quem vai correr uma maratona no deserto.

Camundongos mais sábios em testes de memória espacial

Fora isso, resta apenas extrapolar resultados obtidos em animais para humanos.

Nesse sentido, há sim evidências em camundongos saudáveis (isto é, que não foram expostos a nenhuma doença ou toxina) apontando que o uso prolongado do Noopept melhora o desempenho em testes de memória, inclusive de memória espacial.

Muito embora existam semelhanças entre os processos fisiológicos de formação de memória entre você e roedores (sim, pode torcer o nariz) - obviamente não dá para firmar conclusões a partir disso.

Variedade de mecanismos de ação

E, por fim, numerosas evidências de estudos em microscópio desvendam ações moleculares do Noopept que sugerem benefícios cognitivos. O espectro de mecanismos propostos para a substância é amplo - o que é coerente com aquela gama de atividades neuroprotetoras.

Entre elas, há registro de ação antioxidante e anti-inflamatória (a inflamação é a raiz de várias doenças mentais). Também, é chamativo um incremento da atividade neuronal no hipocampo (região do cérebro importante região para consolidação de memórias de longo-prazo).

O Noopept ainda regula a expressão de vários genes, como de BDNF e NGF, que atuam como "fertilizantes" neuronais e proteínas chaves para a plasticidade do tecido nervoso.

Conclusão
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Em miúdos: não há garantia de que o Noopept promova benefícios na memória, atenção e em outras habilidades intelectuais em pessoas saudáveis, embora estudos em animais e microscópio acenem nesse sentido. Os relatos são ao mesmo tempo intrigantes e altamente sujeitos a efeito placebo.

Isto é: as pessoas antecipam sentir aqueles efeitos prometidos pelas propagandas. E ficam vigilantes sobre seu estado emocional e cognitivo - o que pode fazer com que algo trivial seja atribuído ao Noopept. Ou ainda que a mera excitação em usar algo "1000 vezes mais poderoso que o piracetam" leve a uma melhora de humor e atenção.

Ou, de fato, há realmente algo e esses relatos são verdadeiros.

Apenas um ensaio clínico - feito depois do investimento de alguns milhões de reais e aprovação de comitês de ética - poderia matar a charada. Para muitos, como Grega e Fallon, isso não desestimula o uso.

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