sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Ômega-3 (EPA e DHA) como nootrópicos

Ômega-3 (EPA e DHA)

Introdução

EPA e DHA são ácidos graxos poli-insaturados do tipo ômega-3, derivados de fontes marinhas (em especial peixes de águas frias e profundas). São nutrientes essenciais, isto é, que devem necessariamente ser obtidos na dieta. 

O ALA, ômega-3 presente em fontes vegetais (como a chia, por exemplo), precisa ser convertido pelo corpo em EPA e DHA, mas esse processo é pouco eficiente. O óleo de peixe é o suplemento fonte de ômega-3 (EPA e DHA) mais comum.

Mecanismos de ação

O DHA é o ômega-3 predominante no cérebro e acumula-se em regiões cerebrais associadas com memória e aprendizado, como o córtex cerebral e o hipocampo. Exerce papéis fundamentais. O DHA é incorporado na membrana neuronal, onde regula inúmeros processos, como neurogênese, neuroplasticidade, sinaptogênese e fluidez da membrana - o que, por sua vez, tem impactos na velocidade da transdução de sinais nervosos e neurotransmissão.

O EPA pode contribuir com a função cognitiva ao servir de substrato para a fabricação de eicosanoides, que amenizam a neuroinflamação e melhoram o fluxo sanguíneo cerebral devido aos seus efeitos antitrombóticos e vasodilatadores.

Além disso, o DHA melhora o tônus vascular, o que resulta em aumento do fluxo sanguíneo cerebral durante tarefas cognitivas em adultos saudáveis.

Evidências de eficácia

Um ensaio clínico randomizado mostrou benefícios cognitivos em termos de atenção sustentada e velocidade de reação em pessoas saudáveis que suplementaram óleo de peixe (contendo 1,6 g de EPA e 0,8 g de DHA) durante 35 dias. Também houve melhoras no humor, com aumento do vigor e redução de escores de raiva, ansiedade e depressão, segundo o estudo.

Uma revisão de ensaios clínicos, publicada na revista Nutrients, concluiu que:

É improvável que a suplementação com o DHA seja uma "bala mágica" que criará gênios. Porém, por conta da capacidade humana limitada de sintetizar o DHA e do seu papel crítico na função cerebral, parece prudente que indivíduos saudáveis incluam o DHA em suas dietas para um desempenho cognitivo ótimo ao longo de todos os estágios da vida (...).  

Várias organizações internacionais recomendam o consumo de 500 mg ou mais de EPA+DHA por dia ou 2 refeições com peixe ou mais por semana.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Os benefícios do Panax ginseng

Conheça o ginseng HRG80 - versão sofisticada da raiz milenar, usada para aumentar a energia e vitalidade

"Eu nunca me senti tão bem e energizado, em muitos anos. A 'sensação' de energia e foco veio a mim desde o primeiro dia (...). A produtividade e atenção no trabalho têm aumentado intensamente desde então, e eu também durmo melhor". "Eu me sinto muito energizado após usá-lo. É como beber uma xícara de café, para mim".

Os relatos acima, publicados na Amazon, são de usuários entusiasmados com cápsulas de HRG80 - um produto inovador à base de ginseng, da empresa belga Botalys. Nas propagandas, o HRG80 é promovido como uma preparação especial de ginseng, por ser superior e ultraconcentrada em ingredientes ativos "para ajudar você a se sentir energizado o dia todo, todos os dias" (sic).

Eu conversei com Pierre-Antoine Mariage, co-CEO da Botalys e Nicolas Houyoux, diretor de marketing da empresa (a entrevista completa está ao final desta publicação). Eles reforçam as qualidades do ginseng: relatam que, em testes de consumo, usuários do HRG80 relatam sentir mais foco e energia - ao ponto de cortarem seu consumo diário de café. "O ginseng HRG80 definitivamente dá aquela sensação de 'um dia bom e produtivo' se você usá-lo pela manhã", dizem.

Embora o HRG80 tenha sido batizado só em 2018, o uso de raízes de ginseng - de nome científico Panax ginseng - para sentir mais energia e vitalidade não é novidade entre os orientais. Escrituras chinesas milenares já descreviam que o ginseng serve para "manter a mente animada", "melhorar a cognição e inteligência" ou para "encher de vigor o corpo enfraquecido".

"O ginseng é considerado como o rei dos adaptógenos, que são plantas que aumentam a resiliência contra várias fontes de estresse", explicam Mariage e Houyoux. Por conta dessa reputação, o ginseng saiu somente da Ásia e encontrou terreno fértil no Ocidente. Ao lado do HRG80, existem outras dezenas de formulações comerciais à base de ginseng, que vendem-se como remédio para uma vida atarefada, exaustiva e que coloca muitos em parafuso. 

As prateleiras das farmácias brasileiras estão repletas de produtos de ginseng, frequentemente combinado a vitaminas. Algumas bulas dizem que o ginseng serve para "recuperação em casos de fadiga física e mental (como, por exemplo, sensação de desgaste, irritabilidade, dificuldade de concentração)".

Crivo da ciência: ginseng funciona?

Porém, será que, de fato, o ginseng tem bala na agulha? Uma revisão de literatura da Cochrane apontou que o ginseng promove "melhoras de alguns aspectos da função cognitiva, comportamento e qualidade de vida", mas lembrou que ainda faltam evidências contundentes sobre isso.

Já um ensaio clínico mais recente, financiado pela Botalys, investigou especificamente a eficácia das cápsulas de HRG80 para combater sintomas de fadiga e estresse em trabalhadores sobrecarregados. A pesquisa concluiu que a preparação de ginseng beneficiou a "atenção, memória e percepção de estresse após administração única e repetidas por 5 a 12 dias", de modo superior ao placebo.

Gatos e lebres: o que torna o ginseng HRG80 especial

Na imagem, produto comercial vendido no exterior que tem o ginseng HRG80 como seu ingrediente

As conclusões sobre eficácia do ginseng podem ser diferentes entre os estudos - porque nem todo ginseng é igual. As formulações disponíveis na farmácia da sua esquina podem ter variações imensas entre si em termos de perfil molecular, concentração de princípios ativos e, portanto, em efeitos ou resultados.

O ginseng "original", que cresce nas regiões silvestres da China, Coreia e Sibéria está praticamente extinto. A variedade que compramos hoje é de ginseng cultivado em campo - e sua qualidade e potência finais dependem da qualidade do solo, tempo de colheita (quanto mais antiga a raiz, maior sua potência), ataques de pestes, uso de defensivos agrícolas, etc.

É aí que entra o ineditismo do ginseng HRG80, que se vale da hidroponia - técnica em que o solo é substituído por uma solução nutritiva. O HRG80 é cultivado em condições ótimas - num ambiente estéril, protegido, sem uso de agrotóxicos, com controle de temperatura, umidade e luz. Tudo para atingir potência e qualidade similar à do ginseng obtido na natureza.

Técnica de hidroponia: imagem ilustrativa

Esse ginseng ainda é processado com cozimento ao vapor - transformando-o no "ginseng vermelho". O resultado é o HRG80 - segundo pesquisa, com maior concentração e espectro de compostos bioativos, como ginsenosídeos e polissacarídeos de ginseng. Tal coquetel molecular garantiria uma preparação com efeitos mais pronunciados na disposição física e mental.

"Somos capazes de recriar as condições silvestres ideais (...). Nossa variedade de ginseng coreano (Panax ginseng) é chamada de HRG80 e nós a cultivamos em condições específicas a fim de obter um pó de raiz de ginseng rico em constituintes ativos e com um perfil molecular otimizado para propriedades terapêuticas", explicam os membros da Botalys.

É importante enfatizar que o consumo de qualquer preparação de ginseng deve ser orientada por um profissional de saúde - uma vez que ele pode ser contraindicado em algumas situações (por exemplo, para diabéticos) ou interagir com medicamentos eventualmente em uso (por exemplo, antidepressivos).

Entrevista sobre o ginseng HRG80

Confira abaixo a entrevista com Pierre-Antoine Mariage, co-CEO da Botalys e Nicolas Houyoux, diretor de marketing da empresa, sobre o ginseng HRG80. Não há qualquer parceria comercial entre este blog e a Botalys. Também não promovo o HRG80 ou qualquer preparação de ginseng - o objetivo deste artigo é meramente informativo.

O uso do ginseng remonta há muito tempo. Você poderia descrever o seu uso tradicional em países asiáticos? E para que fins as pessoas usam o ginseng na Europa?

Ilustração de raiz de ginseng na China. Johan Niehouf. Via Wikimedia Commons

O ginseng tem sido louvado como uma importante planta medicinal na cultura asiática por milênios. Inicialmente, era considerado um privilégio da nobreza consumi-lo e ele se situa [historicamente] até na origem da fronteira entre China e Coreia. Enquanto originalmente foi considerada uma planta para a longevidade, as autoridades asiáticas hoje reconhecem muitas outras aplicações de saúde específicas, desde saúde cognitiva até sintomas de menopausa.

Surpreendentemente, o potencial do ginseng para a saúde é pouco explorado na Europa. Grande parte dos produtos formulados com ginseng na União Europeia são para fins de energia e/ou para auxiliar no sistema imunológico. Contudo, uma vez que produtos nootrópicos estão tornando-se cada vez mais populares, está crescendo o interesse sobre outras propriedades do ginseng, como foco, ajudar na memória, etc.

Você investigou a eficácia de uma preparação moderna de ginseng (HRG80). Primeiramente, você pode explicar o que é o ginseng HRG80? Como ele é obtido?

Pierre-Antoine Mariage e Paul-Evence Coppée, fundadores da Botalys. Foto via Vives

A potência dos extratos botânicos depende do perfil molecular da planta. O perfil molecular é baseado na variedade da planta e no ambiente de crescimento (acesso à água e a nutrientes, luminosidade, controle de umidade, ataque de pragas, etc.). Numa abordagem clássica, grande parte das variedades [das plantas] são selecionadas pela produtividade e não por suas propriedades medicinais, e as condições de crescimento são diferentes de lugar para lugar e de colheita para colheita.

A BOTALYS decidiu cuidar dessas questões utilizando uma abordagem única. Através da horta vertical em interiores, somos capazes de recriar as condições silvestres ideais para a produção de perfis moleculares otimizados. Além disso, nós desenvolvemos nossas próprias variedades [de plantas] tendo em mente os benefícios à saúde, para de fato obter o melhor fitoterápico.

Nossa variedade de ginseng coreano (Panax ginseng) é chamada de HRG80 e nós a cultivamos em condições específicas a fim de obter um pó de raiz de ginseng rico em constituintes ativos e com um perfil molecular otimizado para propriedades terapêuticas. Como ele é naturalmente rico [em princípios ativos], não precisamos realizar nenhuma extração e apenas cozinhamos o ginseng através de um processo inspirado na tradição coreana (o ginseng vermelho é [obtido através do] ginseng branco cozinhado ao vapor para atingir formas mais biodisponíveis de ginsenosídeos).

Como o ginseng HRG80 se diferencia do ginseng branco típico? Quais são as vantagens da preparação de ginseng HRG80 sobre as preparações tradicionais?

Ginseng vermelho, pó fino obtido após secagem e moagem das raízes cozidas a vapor. Foto via Vives

O ginseng da BOTALYS tem essencialmente 3 principais vantagens:

  • Pureza absoluta: uma vez que nosso ginseng cresce num ambiente interno ultra-purificado, não contém qualquer traço de contaminação, sejam pesticidas, metais pesados ou mesmo solventes (uma vez que nenhuma extração é necessária para obter nosso elevado conteúdo de princípios ativos).
  • Naturalmente rico em ginsenosídeos bioativos: nossa raiz de ginseng é naturalmente rica em ginsenosídeos (> 10%) sem, ser necessário qualquer processo de extração. Levaria mais de 20 anos para obter esse nível na natureza [isto é, em ambiente selvagem]. Para fins de comparação, o ginseng clássico no mercado nutracêutico tem cerca de 3 anos e o ginseng premium tem cerca de 7 anos (quanto mais antigo, mais rico em princípios bioativos).
  • Perfil molecular estável com comprovados benefícios à saúde: nosso ginseng não somente é rico em ginsenosídeos, como também possui tipos de ginsenosídeos bem específicos, uma vez que mais de 80% deles são formas bioativas de ginsenosídeos. De fato, os ginsenosídeos “clássicos” são precursores de formas bioativas de ginsenosídeos e uma fração deles são então convertidas no intestino para tornarem-se biodisponíveis. Formas bioativas são geralmente raras (também chamadas de “ginsenosídeos raros”). Esse perfil único do ginseng oferece uma melhor bioatividade e é consistente de uma colheita para outra, o que leva a benefícios [também] consistentes.

Você descreve que “os participantes desse estudo eram indivíduos ocupados com serviço social – teleoperadores, engenheiros e pessoal de Tecnologia da Informação, que estão constantemente sobrecarregados com tarefas cognitivas e expostos ao estresse social”. Por que estudar o ginseng nesse público em específico?

Ginseng (Panax ginseng) é considerado como o rei dos adaptógenos. Adaptógenos são plantas que aumentam a resiliência contra várias fontes de estresse. 

O principal objetivo do nosso primeiro ensaio clínico foi demonstrar que o ginseng é realmente um poderoso adaptógeno a partir de uma perspectiva clínica. Para esse projeto, trabalhamos com Alexander Panossian, um célebre especialista em plantas adaptógenas, e ele sugeriu testar o produto sob condições de trabalho muito estressantes. Sob essas condições de trabalho, um efeito placebo não é suficiente e você precisa de uma real atividade adaptógena para obter um efeito clinicamente significativo. Por isso, essa foi a "população" analisada.

Quais são os principais resultados do seu estudo? Quais conclusões podem ser tiradas sobre a eficácia do ginseng HRG80, baseado em seus resultados?

Produto HRG80. Foto via Vives.

Há três conclusões que podemos tirar do estudo:

  • HRG80 aumenta significativamente a capacidade de foco sob condições de sobrecarga de trabalho após uma única dose.
  • HRG80 diminui significativamente o estresse percebido sob condições de sobrecarga de trabalho após apenas 5 dias.
  • HRG80 aumenta a performance mnésica (memória) significativamente após 12 dias

Em 2010, uma revisão Cochrane concluiu que “há uma falta de evidências contundentes que mostrem um efeito melhorador da cognição do Panax ginseng em pessoas saudáveis e nenhuma evidência de alta qualidade sobre sua eficácia em pacientes com demência”, principalmente por conta da heterogeneidade dos produtos investigados. Você poderia, por favor, comentar essa conclusão? Por que estudos sobre o ginseng muitas vezes possuem resultados conflitantes?

Como árduos defensores da fitoterapia baseada na ciência, só podemos concordar com a Cochrane nesse quesito. A ampla heterogeneidade das preparações de ginseng e a qualidade bem frequentemente medíocre só pode levar à resultados clínicos conflitantes. Se um estudo utiliza um produto com amplo espectro (ou seja, sem extração de moléculas específicas), pode se beneficiar de todos os constituintes ativos, mas o perfil molecular varia a cada colheita (consequentemente, a eficácia produto varia de um lote para outro). 

Se o estudo utiliza um extrato, a riqueza de princípios ativos é estável, mas o perfil molecular pode ainda assim variar. Além disso, você perde alguns dos princípios ativos (por exemplo, se você purificar ginsenosídeos, você perde a maior parte de polissacarídeos do ginseng, chamados de ginsans).


Isso está na essência da nossa abordagem, uma vez que oferecemos uma planta pura, potente e de amplo espectro, com um perfil molecular consistente. Sempre usamos a mesma variedade de ginseng, desenvolvida sob as mesmas exatas condições, levando a um perfil molecular padronizado e ideal, e portanto a benefícios consistentes à saúde.

Como é usar o ginseng HRG80, subjetivamente? O que as pessoas relatam?

Executamos um teste de utilização com 160 usuários para comparar as diferenças nos efeitos percebidos. Interessantemente, consumidores não apenas relataram um aumento significativo de energia (comparado ao grupo placebo), mas também um sono melhor e uma redução no consumo de café. Então, o consumo de HRG80 definitivamente dá a sensação de “um dia bom e produtivo” se você usá-lo pela manhã.

Você declarou um conflito de interesse, uma vez que você é co-CEO na Botalys SA. Isso deveria despertar algum ceticismo acerca do estudo?

Na verdadeira Ciência, transparência é chave. Mesmo que nosso estudo tenha sido executado por terceiros, demos suporte financeiro aos experimentos e, portanto, nos sentimos na obrigação de mencionar isso na publicação final. Desejamos definir um novo padrão não apenas em termos da qualidade dos produtos, mas também em termos de ética, para um melhor futuro nutracêutico.

O ginseng HRG80 é exportado para outros países?

América do Norte e Ásia são atualmente nossos principais mercados.

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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Magnésio e as emoções: qual a relação?

A suplementação de magnésio pode ter benefícios para a saúde mental e humor? Conversei sobre esse tema com o médico Thiago Serra e a nutricionista Amanda Castro 

Suplementos de magnésio caíram (literalmente) na boca do povo e não ficam mais parados nas gôndolas das farmácias. Luciano Vigatto, farmacêutico, trabalha há duas décadas - e percebe uma escalada na procura por suplementos como cloreto de magnésio P.A. (pó e cápsulas) e magnésio dimalato. 

"De uns tempos para cá, está vendendo demais. As pessoas compram para tratamento de fibromialgia, dores na coluna e nas pernas", descreve Vigatto, após me enviar a foto da prateleira da drogaria reservada aos suplementos de magnésio.

Foto: arquivo pessoal de Luciano Vigatto / Reprodução

Uma melhora do humor e do estado emocional também motivam a corrida por suplementos de magnésio. Pela Internet, inúmeras páginas e vídeos vendem a ideia de que o mineral ajudaria a combater a depressão e a ansiedade. Mas será que o magnésio de fato pode ajudar a nossa saúde mental? E existem evidências científicas de que ele é eficaz em aplacar a ansiedade e melhorar o humor?

Para buscar a resposta, conversei com o médico Thiago Serra, que é formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) e Pós-Graduando em Psiquiatria [clique aqui para acessar seu Instagram] e com a nutricionista clínica Amanda Castro, formada pela Universidade Federal da Bahia e Pós-Graduada em Alergias e Intolerâncias Alimentares e em Vigilância Sanitária [clique aqui para acessar seu Instagram].

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Nicotina e o cérebro

Entrevista com o médico do esporte João Vitor Nassaralla

"Cigarro é ruim, mas nicotina pode ser boa para o cérebro", lê título do UOL, em 2016. "Adesivos de nicotina podem turbinar o cérebro", afirma a CBN Brasília. Já a Universidade Federal da Paraíba alega que "nicotina pura pode melhorar atenção e memória" em seu website.

Exagero? O quanto de verdade há nisso?

Cientistas e estudiosos de fato acreditam que a nicotina - isolada do tabaco e do cigarro, como nas gomas e adesivos - pode ter efeitos neuroprotetores e melhorar o desempenho mental. 

No periódico Psychopharmacology, pesquisadores analisaram 41 estudos em não-fumantes ou fumantes sem abstinência e concluíram que os "efeitos significativos da nicotina nas habilidades motoras, atenção e memória provavelmente representam uma melhora verdadeira da performance".

Segundo a Escola Médica de Harvard, a nicotina "pode ter um lado bom", citando pesquisas em andamento sobre a eficácia terapêutica da substância na doença de Parkinson, Alzheimer e no Transtorno de Déficit de Atenção.

Diga-me com quem andas, lhe direi quem és...

Cigarros tem uma péssima (e merecida) reputação. Mas a nicotina pode não ser farinha do mesmo saco. O  doutor John Hughes, professor de Psiquiatria na Universidade de Vermont e porta-voz da Sociedade para Pesquisas sobre Nicotina e Tabaco, afirma que "os principais danos do tabagismo não são causados pela nicotina. O câncer e a doença cardíaca associadas ao fumo derivam de carcinógenos e o monóxido de carbono nos cigarros". 

A mesma posição é defendida pelo médico do esporte João Vitor Nassaralla, que entrevistei para elaborar esse artigo.

Gomas de nicotina causam dependência?

A nicotina causa dependência, mas acredita-se que esse risco seja bem maior quando ela é obtida via cigarros, que entregam a substância em segundos e em grande quantidade ao cérebro. 

Outras substâncias presentes no tabaco podem aumentar o potencial de dependência. O doutor João Vitor relembra que aspectos sociais envolvidos no fumo podem contribuir para o vício e que, isoladamente, o potencial de dependência da nicotina é baixo.

O doutor Hughes diz: "eu encontrei pessoas que usam a goma por 15 anos. E a principal queixa delas é o custo da goma".

Porém, uma pesquisa publicada no BMC Public Health soa um alarme: "o vício em gomas de nicotina em pessoas que nunca fumam é provavelmente extremamente raro, mas este estudo sugere que ele pode ocorrer". 

O estudo ainda lembra que os efeitos em longo-prazo das gomas de nicotina são desconhecidos, embora "esse produto seja significativamente menos nocivo que o tabaco".

Com isso, o ideal é que se use essa substância apenas sob supervisão e orientação médica - aspectos individuais devem ser considerados. O doutor João Vitor Nassaralla lembra que a saúde em geral é um importante fator a ser levado em conta antes de se buscar uma substância exógena, como a nicotina, para melhorar as funções mentais.

Um nootrópico? Entrevista com João Vitor Nassaralla

Médico João Vitor 

O médico do esporte João Vitor Nassaralla é adepto do uso das gomas de nicotina - não para parar de fumar, mas para melhorar sua concentração. Ele considera a substância um nootrópico. O médico também compara a nicotina à cafeína, que também é um alcaloide, estimulante e usada para aumentar o foco e energia - mas bem mais aceita e socialmente usada. 

"Eu considero que a nicotina tem efeitos melhores do que a cafeína quando seu objetivo é foco e concentração para executar alguma tarefa criativa ou estudar", diz Nassaralla em publicação no Instagram. "Eu adoro o ato de preparar e tomar café, mas prefiro usar a nicotina quando o trabalho vai me exigir mais foco e concentração".

Tive o prazer de entrevistar o doutor João Vitor Nassaralla, que atenciosamente relatou a sua experiência com a nicotina e os efeitos que observa em seu desempenho cognitivo ao utilizá-la. Ele também descreve em detalhes os possíveis riscos dessa substância.

1. Por que você considera a nicotina um nootrópico? Existem evidências científicas de que ela melhore o desempenho cognitivo?

A nicotina é um excelente nootrópico, por causa de seus efeitos benéficos para o foco, concentração, memória e criatividade. Ela age como agonista de receptores colinérgicos e também está envolvida com a liberação de dopamina.

Inclusive, uma família de receptores colinérgicos que nosso corpo tem é justamente a de receptores nicotínicos. Ela pode ser usada por pessoas saudáveis que querem mais foco, mas também é usada como adjuvante em doenças como Alzheimer ou TDAH.

2. Você contou, num post no Instagram, que costuma usar a nicotina em trabalhos que exigem "foco e concentração", ou quando tem "alguma tarefa criativa". Qual a forma que usa (doses, frequência)? E, por último, pode compartilhar mais sobre os efeitos no humor e cognição que você nota ao usar essa substância?

A nicotina não é uma substância tóxica, apesar de estar associada ao cigarro. Eu uso a nicotina na forma de chiclete, o Nicorette (mas há outros). São chicletes usados por quem quer parar de fumar mas tem dificuldade devido ao vício em nicotina. A nicotina, assim como a cafeína, causa dependência, por isso o uso como nootrópico deve ser moderado.

Eu divido uma pastilha de Nicorette (4 mg) em quatro partes, e uso uma ou duas partes de cada vez (1 - 2 mg). Vale a pena lembrar que você sempre deve começar com 1 mg, e você deve mastigar o chiclete bem lentamente, ao longo de 30min. Eu mastigo o chiclete até sentir o gosto da nicotina, então paro de mastigar e coloco ele no canto da boca por alguns minutos.

Se você usar uma pastilha inteira (4 mg) ou mastigar muito rápido, a nicotina vai ser absorvida em maiores quantidades e você pode ter uma reação colinérgica, que envolve mal estar, sudorese, vômito, taquicardia.

Claro que fumantes não terão estes efeitos, por já estarem acostumados a doses altas.

Há a nicotina em forma de adesivos - porém, nesse caso, há menor controle sobre a sua liberação no corpo. É mais indicada para pessoas que desejam parar de fumar.

3. Como a nicotina se compara à cafeína, que é bem mais utilizada para sessões de estudo ou trabalho? Quais as vantagens (ou desvantagens) que a nicotina tem sobre a cafeína?

Ela tem algumas vantagens sobre a cafeína. Primeiro, que ela melhora alguns aspectos focais, como a capacidade de concatenar ideias. Por isso, ela ajuda bastante na agilidade para escrever ou falar com desenvoltura. Além disso, ela tem um efeito menos súbito, diferente do café, que pode causar agitação.

4. É muito difícil não associar a nicotina ao cigarro. Pode explicar por que os dois são diferentes? Usar nicotina tem os mesmos malefícios do que fumar?

Nicorette, marca de nicotina em gomas. Foto: Arquivo pessoal - João Vitor

A nicotina não é tóxica, ela é apenas a substância que causa a dependência química do cigarro, assim como a cafeína também pode causar dependência. Mas ela não faz mal para nossa saúde. As doenças e malefícios do cigarro vêm das outras centenas de substâncias tóxicas que ele contém. 

Eu utilizo nicotina em doses baixas cerca de 2-3 x por semana, e às vezes passo semanas sem usar e não sinto falta. O potencial de dependência da nicotina isoladamente é baixo. No cigarro ela é mais viciante, pois há aspectos sociais e psicológicos envolvidos. 

A nicotina só não é indicada para quem tem algum tipo de câncer, já que ela pode favorecer o crescimento tumoral. Mas isso também é válido para outras substâncias que usamos diariamente, como açúcar ou glutamina: ambas alimentam tumores.

5. Dito isso, quais os problemas que o uso de nicotina isolada, em gomas ou adesivos, pode causar em seu usuário?

O problema que pode causar é a dependência e a síndrome colinérgica que citei acima, mas ambos problemas são facilmente evitáveis se a dose for bem controlada.

6. Tem dicas para quem deseja melhorar o seu desempenho cognitivo?

O desempenho cognitivo é, antes de tudo, consequência da sua saúde geral. Não adianta usar uma substância ou outra para melhorar a capacidade cerebral se você come mal, dorme mal, se está inflamado, se tem um intestino desregulado... Tudo isso deve ser levado em conta antes de buscar uma substância exógena. Seria como colocar gasolina de avião em um carro que está sem manutenção: não vai adiantar.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Como os exercícios físicos melhoram o humor e o intelecto: uma entrevista com Lucas Monteiro de Carvalho, Mestrando em Ciências Fisiológicas

Uma epidemia silenciosa e crônica avança pelo Brasil. O IBGE divulgou hoje (21) que 1 em cada 4 brasileiros adultos estavam obesos em 2019. Isso corresponde a 41,2 milhões de brasileiros com a doença. Já aqueles com excesso de peso somaram 96 milhões de pessoas – por acaso, você está entre eles?

Seria chover no molhado lembrar que a obesidade pode causar problemas como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono e até alguns tipos de câncer. Mas uma novidade tem se destacado nesse rol de complicações: doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. "A obesidade na meia-idade pode ser considerada um fator de risco para desenvolver doença de Alzheimer na terceira idade", concluiu uma pesquisa publicada em 2019 na Frontiers in Neuroscience.

Diante disso, o educador físico Lucas Monteiro de Carvalho lembra que "apesar de a obesidade favorecer o Alzheimer, o exercício físico parece reduzir as chances do seu surgimento", em publicação em seu perfil no Instagram.

Monteiro é formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e atualmente está realizando um Mestrado em Ciências Fisiológicas também pela UFRRJ. Ele também é membro associado da Sociedade Brasileira de Fisiologia e do Laboratório de Fisiologia e Desempenho Humano, onde desenvolveu projetos com foco na fisiologia aplicada a atividade física

Inúmeras pesquisas fazem coro a Monteiro: manter-se fisicamente ativo pode preservar o cérebro ao longo da vida. E também "dar músculos" às funções cognitivas, mantendo a mente afiada. Em 2019, pesquisadores publicaram na Medicine & Science & Sports & Exercise que a atividade física é associada com risco reduzido de Alzheimer e também ganhos em "velocidade de processamento, memória e funções executivas [que envolvem, por exemplo, tomada de decisões, planejamento e concentração]".

Entrevistei Lucas Monteiro para descobrir mais detalhes sobre essa interessante relação entre exercícios físicos e o cérebro. Em nossa conversa, ele destrincha quais os efeitos fisiológicos da prática de exercícios físicos e explica os benefícios que esse hábito pode produzir. Ele também conta como podemos obter tais benefícios.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Benefícios do suco de uva roxa para o cérebro


Se você precisava de uma desculpa para se deliciar com o suco de uva roxa, cientistas tem uma: a bebida é aliada do cérebro - e pode até deixar sua memória e concentração mais afiadas.

"O consumo de suco de uva (200 - 500 mL/dia) ou o consumo leve a moderado de vinho (uma a quatro taças/dia) foi em geral associado a melhor performance cognitiva", publicaram pesquisadores na Critical Reviews in Food Science and Nutrition. Essa foi a conclusão deles após revisarem uma série de estudos sobre as bebidas.

A uva roxa é um alimento prestigiado - quase um "nootrópico" natural. Entre os alimentos, é um dos que tem o maior grau de evidência científica sobre sua eficácia em beneficiar o desempenho intelectual. O que elas tem de tão especial?

Parte da resposta atende pelo nome de flavonoides - compostos como antocianinas e proantocianidinas, que são repletos de propriedades vantajosas, como efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios - que ajudam a proteger e preservar os neurônios. 

Além disso, flavonoides específicos interferem na dinâmica vascular - por exemplo, aumentando o fluxo de sangue ao cérebro e inibindo a agregação de plaquetas.  Eles também contam com a capacidade de modular e "ativar" genes relacionados à formação de sinapses e neurogênese.

Pesquisa brasileira revela que suco de uva melhora a função cognitiva de mulheres idosas

Pesquisadores do Rio Grande do Sul, por exemplo, investigaram que efeitos o consumo de 400 mL de suco de uva durante um mês teria em mulheres acima de 60 anos. Resultado: o uso crônico da bebida derivada da uva resultou em ganhos significativos na performance cognitiva. 

As idosas melhoraram suas pontuações no Mini Mental - um teste cognitivo que é usado para rastreio de doenças neurodegenerativas. Esse teste avalia funções como a orientação (em relação ao tempo e espaço), registro de palavras, atenção e cálculo, memória e linguagem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Nootrópicos na academia: efeitos de 5 nootrópicos no desempenho físico



Nootrópicos são geralmente usados para melhorar o desempenho cognitivo. Muitos usuários atribuem a esses compostos benefícios como melhora da concentração, motivação, níveis de energia, memória e aprendizado.

Se você é apaixonado por exercícios físicos, já deve ter ouvido falar sobre a conexão mente-músculo - que discute os aspectos psicológicos do treino. Uma pesquisa mostrou, por exemplo, que executar os movimentos com um maior "foco interno" favorece a hipertrofia muscular.

Diante disso, algumas pesquisas investigaram também os efeitos de alguns nootrópicos (ou outros melhoradores cognitivos) na performance física. Além de possíveis impactos psicológicos - como redução da percepção de fadiga ou ganho de concentração - alguns nootrópicos poderiam atuar por seus efeitos antioxidantes ou hormonais. 

Não inclui a cafeína neste artigo, pois seus efeitos já são bem conhecidos.

Vamos conferir o que dizem as pesquisas que analisaram esse tema:

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Os riscos da Ritalina em um cérebro saudável

Aumenta o uso de Ritalina (metilfenidato) para turbinar o rendimento intelectual. Será que o estimulante funciona?

Pesquisas têm apontado um aumento no uso de Ritalina - medicamento estimulante, à base de metilfenidato - no Brasil. Não é que haja uma epidemia de Transtorno de Déficit de Atenção, que é a indicação oficial deste medicamento. A droga tem sido "cada vez mais usada por indivíduos saudáveis tentando melhorar seu funcionamento cognitivo, emocional e motivacional", afirmam pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, num estudo que publicaram sobre a Ritalina.

"Estudantes usam medicamentos estimulantes para melhorar o desempenho acadêmico, especificamente para aumento da concentração e organização, e para permanecer acordado por mais tempo para estudar", afirmam.

Diante desse cenários, esses cientistas buscaram responder a seguinte pergunta: a Ritalina sequer funciona, em primeiro lugar, para melhorar o desempenho cognitivo de pessoas saudáveis, de forma confiável?

Substância não aumenta foco e pode induzir excesso de confiança, mostra pesquisa

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Neuroética: a ética x o uso de nootrópicos e melhoradores cognitivos farmacológicos


A “neurocosmética” avança a galopes. Alguns trabalhos científicos propõem respostas aos anseios do homem por substâncias que melhorem o desempenho da mente. Alguns autores são mais enfáticos, ao concluir que determinadas substâncias podem engendrar os desejados benefícios à memória, atenção e humor. 

Por exemplo, um grupo japonês crava que a l-teanina, composto encontrado naturalmente no chá verde, “claramente tem um efeito pronunciado na performance da atenção e no tempo de reação em voluntários saudáveis e normais com tendência a maior ansiedade", após ensaio clínico num grupo de universitários.

Outro retrato dessas afirmações incisivas é a conclusão de uma dupla de cientistas de Oxford e Harvard, após revisar estudos sobre uma substância totalmente diferente. Dessa vez, uma droga controlada – e com efeitos desconhecidos em longo-prazo – chamada modafinila.

Nas palavras desses pesquisadores, “quando avaliações complexas são utilizadas, a modafinila parece gerar melhorias na atenção, funções executivas e aprendizado de modo consistente” em pessoas saudáveis, sem déficits cognitivos.

É claro que essas conclusões também podem ser contestadas. E devemos sempre considerar os riscos envolvidos. Porém, se fôssemos assumir que essas substâncias são mesmo vantajosas ao nosso desempenho mental, é legítimo ou ético usá-las? 

Como diz o filósofo Mário Sérgio Cortella, “ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: (1) quero?; (2) devo?; (3) posso? Nem tudo que eu quero, eu posso; nem tudo que eu posso, eu devo; e nem tudo que eu devo, eu quero”. Embora soe atrativo, por exemplo, que a l-teanina ou a modafinila melhorem a atenção, será que podemos usá-loa? 

A modafinila é um fármaco controlado – não é possível usá-lo sem prescrição médica. Ainda que, mesmo assim, pudéssemos usá-la, os riscos de um medicamento controlado à saúde provavelmente não compensariam eventuais "benefícios" que foram observados apenas em curto-prazo. 

Mas podemos livremente usar a l-teanina: ela é mais concentrada no chá verde do tipo ‘matchá’ e também é vendida como suplemento alimentar. Mas devemos usá-la para melhorar a atenção? É ético?

A discussão é ainda mais nebulosa ao considerarmos, por exemplo, que 73% de um grupo de estudantes de Medicina analisados em uma pesquisa já usam o café propositadamente para dar um ‘upgrade’ na capacidade intelectual. Bom, a cafeína melhora algumas funções cognitivas e o humor em situações de fadiga. E ninguém torce o nariz para quem bebe um cafezinho para espantar o sono e render mais no trabalho – ou seja, melhorar o desempenho mental. 

Então, seria condenável suplementar a l-teanina (o tal composto do chá verde), por exemplo, para aumentar a atenção? Ou talvez a l-tirosina, um aminoácido (encontrado em alimentos), que “parece melhorar a performance cognitiva de forma eficaz, em particular em condições estressantes ou que demandam muito da cognição”, para parafrasear o resumo de um artigo.

Ao mesmo tempo, o consumo de álcool, substância que também afeta o cérebro, o comportamento e o intelecto, é socialmente aceito. O álcool, porém, tem efeitos negativos: pode “resultar em prejuízos às funções executivas de planejamento, memória operativa e flexibilidade cognitiva” e em danos à estrutura do cérebro. Se o álcool é tolerado em nossa sociedade, por que seria condenável utilizar, por exemplo, a Bacopa monnieri – erva tradicionalmente empregada há milênios para beneficiar a memória e que, segundo pesquisas, poderia ter efeitos neuroprotetores?

A neuroética e o uso responsável de melhoradores cognitivos

Em artigo de opinião na Nature, cientistas falam sobre "uso responsável de drogas melhoradoras da cognição pelos saudáveis"

É claro: são muitas as variáveis envolvidas nesses questionamentos. Respostas simplistas não encerram a questão. Junto com a Neurocosmética, tem crescido a Neuroética. Cientistas têm escrutinizado os aspectos éticos envolvidos no uso de nootrópicos e ‘smart drugs’. 

Um grupo de especialistas conceituados – Barbara Sahakian (Universidade de Cambridge), Henry Greely (Stanford University), John Harris (The University of Manchester), Ronald C. Kessler (Harvard Medical School), entre outros – publicou um artigo de opinião na prestigiada revista Nature (imagem acima). Eles clamam pelo “uso responsável de melhoradores cognitivos pelos saudáveis”. 

“A sociedade deve responder às demandas crescentes pelo melhoramento cognitivo. Essa resposta deve começar rejeitando a ideia de que ‘melhoramento’ é uma palavra suja”, argumentam. “O melhoramento cognitivo tem muito a oferecer aos indivíduos e à sociedade, e uma resposta social apropriada envolverá tornar esses melhoramentos disponíveis enquanto se administram seus riscos”, escrevem. 

Para eles, as drogas podem até parecer diferentes de outros métodos “naturais”, como alimentação e exercício, também usados para melhorar as funções mentais, já que alteram a função do cérebro. “Mas, na realidade, qualquer intervenção que melhora a cognição [também altera a função cerebral]. Pesquisas recentes têm identificado mudanças neurais benéficas provocadas pelo exercício, nutrição e sono (...)”, argumentam. 

Será que essas substâncias seriam uma forma de trapacear? “No contexto de esportes, o melhoramento do desempenho através de fármacos é, de fato, trapaça. Mas, é claro, é trapaça porque é contra as regras. Qualquer bom código de regras precisaria distinguir os métodos de melhoramentos cognitivos permitidos hoje, desde ter professores particulares a cafés espressos duplos, dos novos métodos, se eles precisam ser banidos”. 

Os pesquisadores reconhecem algumas preocupações éticas, como segurança. Para eles, os prós e os contras dessas intervenções devem ser colocados na balança – e isso exige mais estudos científicos para, por exemplo, analisar possíveis efeitos colaterais em longo prazo. “Reivindicamos uma abordagem baseada em evidências para a avaliação dos riscos e benefícios dos melhoramentos cognitivos”, escrevem eles.

Outra preocupação é a liberdade. Imagine se substâncias para aumentar o intelecto fossem disseminadas na sociedade. Será que isso abriria margem para empregadores exigirem o uso delas por seus funcionários, por exemplo? “Um exemplo hipotético é o de uma droga extremamente segura que permitisse cirurgiões salvar mais pacientes. Seria errado exigir essa droga para cirurgias arriscadas?”, questionam os especialistas. 

Para eles, a solução está na construção de políticas que proíbam esse tipo de coerção, exceto em situações muito específicas, como na hipótese do cirurgião. “Empregadores, escolas ou governos não devem exigir, em geral, o uso de melhoradores cognitivos”, consideram eles.  

Uma última preocupação ética é a justiça. Imagine concurseiros que competem por um número limitado de vagas de emprego. Alguns têm acesso, durante a preparação para uma prova, a um nootrópico hipotético com bom perfil de segurança e capaz de melhorar o aprendizado. Outros não têm acesso – talvez por recursos financeiros. “Seria injusto permitir alguns, mas não todos, os estudantes de usar melhoradores cognitivos”, argumentam os pesquisadores. 

Para eles, a solução deve passar novamente por políticas que governem o uso de melhoradores cognitivos. Essas políticas “em situações competitivas devem evitar exacerbar inequidades socioeconômicas (...)”. Eles consideram até mesmo que eventuais disparidades podem ser mitigadas “concedendo a cada participante da prova acesso livre a melhoradores cognitivos” – o que soa utópico, e, reconhecem eles, poderia até criar uma pressão indireta pelo uso de substâncias que melhorem o desempenho cognitivo. 

"Precedente" em outras áreas da Medicina, segundo autores na Nature

Outra questão: diante de pacientes que desejam aumentar o rendimento intelectual, será que médicos podem ou devem prescrever uma droga capaz de melhorar a cognição? Para os pesquisadores, isso dependerá da filosofia do profissional. Médicos que entendem a Medicina como forma de curar os doentes, e não de melhorar os saudáveis, irão desaprovar. 

Contudo, “aqueles que enxergam a Medicina de forma mais ampla, como forma de ajudar pacientes a viver melhor ou atingir seus objetivos estariam abertos para considerar esse tipo de pedido”, dizem os cientistas. “Há certamente um precedente para essa visão mais ampla em alguns ramos da Medicina, como Cirurgia Plástica, Dermatologia, Medicina do Esporte e Medicina da Fertilidade”. Todas essas são áreas que visam ‘aprimorar’ pessoas saudáveis ou ampliar e otimizar suas capacidades naturais.

Diante de tudo isso, os autores desse artigo da Nature concluem que: 

“Como todas as novas tecnologias, o melhoramento cognitivo pode ser usado de uma forma positiva ou negativa. Nós devemos acolher novos métodos de aprimorar nossa função cerebral. Num mundo em que o tempo de trabalho e o tempo de vida estão aumentando, ferramentas de melhoramento cognitivo – incluindo as farmacológicas – serão cada vez mais úteis para aumentar a qualidade de vida e estender a produtividade no trabalho, assim como afastar o declínio cognitivo normal (relacionado à idade) e patológico. 

Melhoradores cognitivos seguros e efetivos beneficiarão ambos indivíduo e sociedade. Mas seria também insensato ignorar problemas que o uso de tais drogas poderia criar ou exacerbar. Com isso, assim como em outras tecnologias, precisamos pensar e trabalhar duro para maximizar seus benefícios e minimizar seus danos”.

Como Aumentar os Níveis de Dopamina Naturalmente?

O que é a dopamina?
A dopamina é um neurotransmissor, isto é, um tipo de mensageiro químico. Assim como hormônios enviam mensagens para vários órgãos, neurotransmissores carregam recados de um neurônio a outro. No caso da dopamina, ela tem muito a ver com nossos níveis de motivação - a nossa persistência em ir além, buscar concretizar nossas ambições e desejos, realizar nossos sonhos. 

Ela também cumpre muitas outras funções. Sabe-se que a dopamina tem um papel em regular nossos níveis de atenção, nosso controle motor... Em meu vídeo (confira abaixo), explico melhor sobre para quê serve a dopamina, de forma bem simples:

E como manter níveis saudáveis de dopamina? Ou até mesmo aumentar os níveis de dopamina? Existem algumas coisas em nosso estilo de vida que podemos fazer:

1. Consuma l-tirosina

A
l-tirosina, um nutriente, serve como matéria-prima para seu cérebro produzir dopamina. Enzimas em seu corpo transformam a l-tirosina em dopamina. Ou seja: você precisa desse nutriente para manter bons níveis de dopamina.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Conheça a 2ª edição do livro "Turbine seu Cérebro"


Os segredos da neurociência para um intelecto mais afiado!


Como otimizar ao máximo a capacidade intelectual? 

Há alguma forma de garantir um raciocínio mais ágil e coerente? Ou de aumentar a atenção e foco em determinada tarefa? Podemos fazer algo para ter uma memória mais afiada ou para aprender habilidades com mais facilidade? 

Que hábitos estão em nosso alcance - como em nosso estilo de vida - para melhorar nosso bem-estar e humor ou para preservar a saúde do cérebro ao longo da vida? 

São essas as perguntas que a segunda edição do livro "Turbine seu Cérebro" responde. 


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Conteúdo: nootrópicos e estilo de vida

Para trazer a você uma edição mais atualizada, precisa e rica, foram meses de pesquisas sobre os nootrópicos. Essas são substâncias diversas como suplementos, fitoterápicos e fármacos - que supostamente melhorariam a memória, concentração e o desempenho mental.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

7 suplementos e fitoterápicos que podem ajudar a reduzir o estresse, segundo pesquisas


Você acorda e percebe que não ouviu o seu despertador tocar e agora está atrasado para o trabalho! Sirenes tocam em sua mente: você entra em modo de emergência e tenta se arrumar o mais rápido possível. Pronto - você mal acordou e seu corpo já está sofrendo com o estresse.

A visão da psicologia sobre o estresse - e como ele afeta seu cérebro
O estresse vem do inglês stress, que significa "pressão" ou "tensão". Segundo artigo publicado no Jama, experimentamos estresse psicológico quando sentimos que não temos recursos suficientes para superar ou suportar as exigências que recaem sobre nós [1]. Daí, nos sentimos ameaçados - sobrecarregados ou, justamente, sob pressão.

Essa reação pode até ser útil. No exemplo do seu atraso para o trabalho, o estresse te dá o pique para se arrumar na correria. Mas com inúmeras fontes de estresse - boletos, abacaxis que aparecem de surpresa para serem solucionados, prazos, excesso de trabalho e por aí vai - temos um problema.

Instala-se o estresse crônico, que afeta seu corpo e também prejudica a saúde mental, afetando o humor e a cognição. Segundo a Mayo Clinic, o estresse crônico está associado a [2]:
  • Ansiedade
  • Depressão
  • Problemas digestivos
  • Dores de cabeça
  • Doenças cardíacas
  • Insônia
  • Ganho de peso
  • Problemas de concentração e memória - o hipocampo, parte do cérebro que é crucial para gravar informações e para o aprendizado é altamente sensível ao estresse [3].
Pandemia aumentou índices de estresse 
Inclusive, a situação se agravou com a pandemia da covid-19. Novos ingredientes somaram-se à receita do estresse, como o isolamento social, reajustes na rotina e o medo em relação ao futuro. Pesquisa norte-americana, de maio de 2020, mostrou que houve um aumento significativo de estresse sobre o emprego e a economia [4].

Como reduzir o estresse, afinal? Existem suplementos que ajudem? 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Cochilo cafeinado (caffeine-nap): combo de café e soneca pode recuperar energia e alerta, avaliam estudos



Pode soar familiar. Você acordou cedo. Está no meio de um dia exaustivo de trabalho (quem sabe, em home office) ou de estudos. Com a fadiga cognitiva se acumulado, sua mente já está operando em marcha lenta. O que fazer para revitalizar-se rapidamente e recuperar a disposição, o alerta e a atenção que o restante do dia exigirá?

Uma xícara de café?
Um cochilo rápido?

De acordo com a ciência, nem um, nem outro: você deve tentar os dois. Estudos indicam que o meio mais vantajoso para restaurar os níveis de energia e disposição é tentar um "cochilo cafeinado" (do inglês caffeine-nap).

O que é o cochilo cafeinado?
A ideia que os cientistas estão pesquisando é a seguinte: tomar a cafeína (ou alguma fonte do estimulante, como o café) imediatamente antes do cochilo. E esse cochilo deve ser do tipo power-nap: um sono curto. Estamos falando de dormir por não mais que 15 a 20 minutos. 

O tempo importa: se você pregar os olhos por mais tempo que isso, corre o risco de entrar em fases mais profundas do sono. Evita-se, assim, acordar grogue ou com sensação de "ressaca". Colocar um alarme pode ser uma excelente ideia. 

Além disso, os efeitos da cafeína no alerta e atenção tornam-se mais evidentes 20 a 30 minutos após seu uso - coincidindo com o momento em que você desperta.

Experimentos afirmam que o cochilo cafeinado é melhor que o café ou a soneca isoladamente

Em 1997, dois pesquisadores examinaram os efeitos da cafeína e da soneca em um pequeno grupo de pessoas sonolentas e as dividiram em: 1) quem usou 200 mg de cafeína (no café), 2) quem usou um café descafeinado (placebo), 3) quem apenas cochilou, 4) quem cochilou e usou 200 mg de cafeína logo antes [1, 2].

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Perfil: Semax - o que é, para que serve, mecanismos de ação, estudos sobre eficácia e segurança


O que é o Semax?
O Semax é uma molécula fabricada em laboratório, ou seja, não existe na natureza. Ele é considerado um neuropeptídeo. Isso significa que é um peptídeo (conjunto de aminoácidos) que afeta o sistema nervoso central. Não é disponível no Brasil para uso humano, não tendo sido avaliado pela Anvisa.

É vendido na Rússia como medicamento para o tratamento de problemas neurológicos e cognitivos. Pesquisadores russos alegam que a substância é um nootrópico - isto é, que amplia as capacidades cognitivas e protege o cérebro. Mas poucas evidências estão disponíveis para comprovar essas alegações. Mesmo assim, em websites norte-americanos, entusiastas de nootrópicos chegam a elogiar o Semax como "o caviar dos nootrópicos russos".

Confira o que a ciência diz sobre essa substância.

ATENÇÃO: esse artigo não promove nem endossa o uso de Semax, que não é registrado na Anvisa. O objetivo é apenas discutir o que se conhece a respeito dos seus efeitos.

Relação com o ACTH
O Semax foi desenvolvido tendo como base a molécula do hormônio adrenocorticotrófico (ou ACTH) [1]. Esse hormônio, que ocorre naturalmente em nosso corpo, é formado por 39 aminoácidos - unidades que ligam-se como blocos de Lego para montá-lo. O Semax é fabricado como um análogo de um fragmento inicial da molécula de ACTH - os aminoácidos 4 a 10. 

No desenvolvimento do Semax, modificações no fragmento original 4-10 do ACTH foram realizadas, de modo a garantir resistência contra a metabolização. Com isso, o Semax tem um tempo de atividade mais longo (cerca de 20 vezes maior) in vivo que o fragmento original de ACTH.

Compostos com essas características - análogos do fragmento inicial de ACTH - são considerados por autores russos como "bem reconhecidos por suas potentes atividades neuro-restauradoras e atividades cognitivas" [1] [2]. 

Assim, a busca por moléculas com essas qualidades - que ajudassem a regenerar o tecido nervoso lesionado ou a melhorar as capacidades intelectuais - levou à criação do Semax e incentivou as pesquisas em torno dessa substância.

Na avaliação dos pesquisadores russos, o Semax tem "profundos efeitos no aprendizado e exerce pronunciadas atividades neuroprotetoras" após a aplicação intranasal.

É importante notar que o Semax não tem atividade similar ao ACTH. Apesar da sua semelhança estrutural com um fragmento do ACTH, o Semax é "completamente destituído de qualquer atividade hormonal associada com a molécula inteira de ACTH" [1].

Usos aprovados

Na Rússia, o Semax é aprovado como fármaco. Ele é o composto ativo de drogas intranasais "Solução de SEMAX-0.1%" e "Solução de SEMAX-1.0%", de acordo com a concentração. Esses medicamentos são indicados para o tratamento de traumas cerebrais, infartos e insuficiência circulatória e também para "melhorar as habilidades de aprendizado e formação de memória" [1].