quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Nicotina e o cérebro

Entrevista com o médico do esporte João Vitor Nassaralla

"Cigarro é ruim, mas nicotina pode ser boa para o cérebro", lê título do UOL, em 2016. "Adesivos de nicotina podem turbinar o cérebro", afirma a CBN Brasília. Já a Universidade Federal da Paraíba alega que "nicotina pura pode melhorar atenção e memória" em seu website.

Exagero? O quanto de verdade há nisso?

Cientistas e estudiosos de fato acreditam que a nicotina - isolada do tabaco e do cigarro, como nas gomas e adesivos - pode ter efeitos neuroprotetores e melhorar o desempenho mental. 

No periódico Psychopharmacology, pesquisadores analisaram 41 estudos em não-fumantes ou fumantes sem abstinência e concluíram que os "efeitos significativos da nicotina nas habilidades motoras, atenção e memória provavelmente representam uma melhora verdadeira da performance".

Segundo a Escola Médica de Harvard, a nicotina "pode ter um lado bom", citando pesquisas em andamento sobre a eficácia terapêutica da substância na doença de Parkinson, Alzheimer e no Transtorno de Déficit de Atenção.

Diga-me com quem andas, lhe direi quem és...

Cigarros tem uma péssima (e merecida) reputação. Mas a nicotina pode não ser farinha do mesmo saco. O  doutor John Hughes, professor de Psiquiatria na Universidade de Vermont e porta-voz da Sociedade para Pesquisas sobre Nicotina e Tabaco, afirma que "os principais danos do tabagismo não são causados pela nicotina. O câncer e a doença cardíaca associadas ao fumo derivam de carcinógenos e o monóxido de carbono nos cigarros". 

A mesma posição é defendida pelo médico do esporte João Vitor Nassaralla, que entrevistei para elaborar esse artigo.

Gomas de nicotina causam dependência?

A nicotina causa dependência, mas acredita-se que esse risco seja bem maior quando ela é obtida via cigarros, que entregam a substância em segundos e em grande quantidade ao cérebro. 

Outras substâncias presentes no tabaco podem aumentar o potencial de dependência. O doutor João Vitor relembra que aspectos sociais envolvidos no fumo podem contribuir para o vício e que, isoladamente, o potencial de dependência da nicotina é baixo.

O doutor Hughes diz: "eu encontrei pessoas que usam a goma por 15 anos. E a principal queixa delas é o custo da goma".

Porém, uma pesquisa publicada no BMC Public Health soa um alarme: "o vício em gomas de nicotina em pessoas que nunca fumam é provavelmente extremamente raro, mas este estudo sugere que ele pode ocorrer". 

O estudo ainda lembra que os efeitos em longo-prazo das gomas de nicotina são desconhecidos, embora "esse produto seja significativamente menos nocivo que o tabaco".

Com isso, o ideal é que se use essa substância apenas sob supervisão e orientação médica - aspectos individuais devem ser considerados. O doutor João Vitor Nassaralla lembra que a saúde em geral é um importante fator a ser levado em conta antes de se buscar uma substância exógena, como a nicotina, para melhorar as funções mentais.

Um nootrópico? Entrevista com João Vitor Nassaralla

Médico João Vitor 

O médico do esporte João Vitor Nassaralla é adepto do uso das gomas de nicotina - não para parar de fumar, mas para melhorar sua concentração. Ele considera a substância um nootrópico. O médico também compara a nicotina à cafeína, que também é um alcaloide, estimulante e usada para aumentar o foco e energia - mas bem mais aceita e socialmente usada. 

"Eu considero que a nicotina tem efeitos melhores do que a cafeína quando seu objetivo é foco e concentração para executar alguma tarefa criativa ou estudar", diz Nassaralla em publicação no Instagram. "Eu adoro o ato de preparar e tomar café, mas prefiro usar a nicotina quando o trabalho vai me exigir mais foco e concentração".

Tive o prazer de entrevistar o doutor João Vitor Nassaralla, que atenciosamente relatou a sua experiência com a nicotina e os efeitos que observa em seu desempenho cognitivo ao utilizá-la. Ele também descreve em detalhes os possíveis riscos dessa substância.

1. Por que você considera a nicotina um nootrópico? Existem evidências científicas de que ela melhore o desempenho cognitivo?

A nicotina é um excelente nootrópico, por causa de seus efeitos benéficos para o foco, concentração, memória e criatividade. Ela age como agonista de receptores colinérgicos e também está envolvida com a liberação de dopamina.

Inclusive, uma família de receptores colinérgicos que nosso corpo tem é justamente a de receptores nicotínicos. Ela pode ser usada por pessoas saudáveis que querem mais foco, mas também é usada como adjuvante em doenças como Alzheimer ou TDAH.

2. Você contou, num post no Instagram, que costuma usar a nicotina em trabalhos que exigem "foco e concentração", ou quando tem "alguma tarefa criativa". Qual a forma que usa (doses, frequência)? E, por último, pode compartilhar mais sobre os efeitos no humor e cognição que você nota ao usar essa substância?

A nicotina não é uma substância tóxica, apesar de estar associada ao cigarro. Eu uso a nicotina na forma de chiclete, o Nicorette (mas há outros). São chicletes usados por quem quer parar de fumar mas tem dificuldade devido ao vício em nicotina. A nicotina, assim como a cafeína, causa dependência, por isso o uso como nootrópico deve ser moderado.

Eu divido uma pastilha de Nicorette (4 mg) em quatro partes, e uso uma ou duas partes de cada vez (1 - 2 mg). Vale a pena lembrar que você sempre deve começar com 1 mg, e você deve mastigar o chiclete bem lentamente, ao longo de 30min. Eu mastigo o chiclete até sentir o gosto da nicotina, então paro de mastigar e coloco ele no canto da boca por alguns minutos.

Se você usar uma pastilha inteira (4 mg) ou mastigar muito rápido, a nicotina vai ser absorvida em maiores quantidades e você pode ter uma reação colinérgica, que envolve mal estar, sudorese, vômito, taquicardia.

Claro que fumantes não terão estes efeitos, por já estarem acostumados a doses altas.

Há a nicotina em forma de adesivos - porém, nesse caso, há menor controle sobre a sua liberação no corpo. É mais indicada para pessoas que desejam parar de fumar.

3. Como a nicotina se compara à cafeína, que é bem mais utilizada para sessões de estudo ou trabalho? Quais as vantagens (ou desvantagens) que a nicotina tem sobre a cafeína?

Ela tem algumas vantagens sobre a cafeína. Primeiro, que ela melhora alguns aspectos focais, como a capacidade de concatenar ideias. Por isso, ela ajuda bastante na agilidade para escrever ou falar com desenvoltura. Além disso, ela tem um efeito menos súbito, diferente do café, que pode causar agitação.

4. É muito difícil não associar a nicotina ao cigarro. Pode explicar por que os dois são diferentes? Usar nicotina tem os mesmos malefícios do que fumar?

Nicorette, marca de nicotina em gomas. Foto: Arquivo pessoal - João Vitor

A nicotina não é tóxica, ela é apenas a substância que causa a dependência química do cigarro, assim como a cafeína também pode causar dependência. Mas ela não faz mal para nossa saúde. As doenças e malefícios do cigarro vêm das outras centenas de substâncias tóxicas que ele contém. 

Eu utilizo nicotina em doses baixas cerca de 2-3 x por semana, e às vezes passo semanas sem usar e não sinto falta. O potencial de dependência da nicotina isoladamente é baixo. No cigarro ela é mais viciante, pois há aspectos sociais e psicológicos envolvidos. 

A nicotina só não é indicada para quem tem algum tipo de câncer, já que ela pode favorecer o crescimento tumoral. Mas isso também é válido para outras substâncias que usamos diariamente, como açúcar ou glutamina: ambas alimentam tumores.

5. Dito isso, quais os problemas que o uso de nicotina isolada, em gomas ou adesivos, pode causar em seu usuário?

O problema que pode causar é a dependência e a síndrome colinérgica que citei acima, mas ambos problemas são facilmente evitáveis se a dose for bem controlada.

6. Tem dicas para quem deseja melhorar o seu desempenho cognitivo?

O desempenho cognitivo é, antes de tudo, consequência da sua saúde geral. Não adianta usar uma substância ou outra para melhorar a capacidade cerebral se você come mal, dorme mal, se está inflamado, se tem um intestino desregulado... Tudo isso deve ser levado em conta antes de buscar uma substância exógena. Seria como colocar gasolina de avião em um carro que está sem manutenção: não vai adiantar.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Como os exercícios físicos melhoram o humor e o intelecto: uma entrevista com Lucas Monteiro de Carvalho, Mestrando em Ciências Fisiológicas

Uma epidemia silenciosa e crônica avança pelo Brasil. O IBGE divulgou hoje (21) que 1 em cada 4 brasileiros adultos estavam obesos em 2019. Isso corresponde a 41,2 milhões de brasileiros com a doença. Já aqueles com excesso de peso somaram 96 milhões de pessoas – por acaso, você está entre eles?

Seria chover no molhado lembrar que a obesidade pode causar problemas como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono e até alguns tipos de câncer. Mas uma novidade tem se destacado nesse rol de complicações: doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. "A obesidade na meia-idade pode ser considerada um fator de risco para desenvolver doença de Alzheimer na terceira idade", concluiu uma pesquisa publicada em 2019 na Frontiers in Neuroscience.

Diante disso, o educador físico Lucas Monteiro de Carvalho lembra que "apesar de a obesidade favorecer o Alzheimer, o exercício físico parece reduzir as chances do seu surgimento", em publicação em seu perfil no Instagram.

Monteiro é formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e atualmente está realizando um Mestrado em Ciências Fisiológicas também pela UFRRJ. Ele também é membro associado da Sociedade Brasileira de Fisiologia e do Laboratório de Fisiologia e Desempenho Humano, onde desenvolveu projetos com foco na fisiologia aplicada a atividade física

Inúmeras pesquisas fazem coro a Monteiro: manter-se fisicamente ativo pode preservar o cérebro ao longo da vida. E também "dar músculos" às funções cognitivas, mantendo a mente afiada. Em 2019, pesquisadores publicaram na Medicine & Science & Sports & Exercise que a atividade física é associada com risco reduzido de Alzheimer e também ganhos em "velocidade de processamento, memória e funções executivas [que envolvem, por exemplo, tomada de decisões, planejamento e concentração]".

Entrevistei Lucas Monteiro para descobrir mais detalhes sobre essa interessante relação entre exercícios físicos e o cérebro. Em nossa conversa, ele destrincha quais os efeitos fisiológicos da prática de exercícios físicos e explica os benefícios que esse hábito pode produzir. Ele também conta como podemos obter tais benefícios.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Benefícios do suco de uva roxa para o cérebro


Se você precisava de uma desculpa para se deliciar com o suco de uva roxa, cientistas tem uma: a bebida é aliada do cérebro - e pode até deixar sua memória e concentração mais afiadas.

"O consumo de suco de uva (200 - 500 mL/dia) ou o consumo leve a moderado de vinho (uma a quatro taças/dia) foi em geral associado a melhor performance cognitiva", publicaram pesquisadores na Critical Reviews in Food Science and Nutrition. Essa foi a conclusão deles após revisarem uma série de estudos sobre as bebidas.

A uva roxa é um alimento prestigiado - quase um "nootrópico" natural. Entre os alimentos, é um dos que tem o maior grau de evidência científica sobre sua eficácia em beneficiar o desempenho intelectual. O que elas tem de tão especial?

Parte da resposta atende pelo nome de flavonoides - compostos como antocianinas e proantocianidinas, que são repletos de propriedades vantajosas, como efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios - que ajudam a proteger e preservar os neurônios. 

Além disso, flavonoides específicos interferem na dinâmica vascular - por exemplo, aumentando o fluxo de sangue ao cérebro e inibindo a agregação de plaquetas.  Eles também contam com a capacidade de modular e "ativar" genes relacionados à formação de sinapses e neurogênese.

Pesquisa brasileira revela que suco de uva melhora a função cognitiva de mulheres idosas

Pesquisadores do Rio Grande do Sul, por exemplo, investigaram que efeitos o consumo de 400 mL de suco de uva durante um mês teria em mulheres acima de 60 anos. Resultado: o uso crônico da bebida derivada da uva resultou em ganhos significativos na performance cognitiva. 

As idosas melhoraram suas pontuações no Mini Mental - um teste cognitivo que é usado para rastreio de doenças neurodegenerativas. Esse teste avalia funções como a orientação (em relação ao tempo e espaço), registro de palavras, atenção e cálculo, memória e linguagem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Nootrópicos na academia: efeitos de 5 nootrópicos no desempenho físico



Nootrópicos são geralmente usados para melhorar o desempenho cognitivo. Muitos usuários atribuem a esses compostos benefícios como melhora da concentração, motivação, níveis de energia, memória e aprendizado.

Se você é apaixonado por exercícios físicos, já deve ter ouvido falar sobre a conexão mente-músculo - que discute os aspectos psicológicos do treino. Uma pesquisa mostrou, por exemplo, que executar os movimentos com um maior "foco interno" favorece a hipertrofia muscular.

Diante disso, algumas pesquisas investigaram também os efeitos de alguns nootrópicos (ou outros melhoradores cognitivos) na performance física. Além de possíveis impactos psicológicos - como redução da percepção de fadiga ou ganho de concentração - alguns nootrópicos poderiam atuar por seus efeitos antioxidantes ou hormonais. 

Não inclui a cafeína neste artigo, pois seus efeitos já são bem conhecidos.

Vamos conferir o que dizem as pesquisas que analisaram esse tema:

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Os riscos da Ritalina em um cérebro saudável

Aumenta o uso de Ritalina (metilfenidato) para turbinar o rendimento intelectual. Será que o estimulante funciona?

Pesquisas têm apontado um aumento no uso de Ritalina - medicamento estimulante, à base de metilfenidato - no Brasil. Não é que haja uma epidemia de Transtorno de Déficit de Atenção, que é a indicação oficial deste medicamento. A droga tem sido "cada vez mais usada por indivíduos saudáveis tentando melhorar seu funcionamento cognitivo, emocional e motivacional", afirmam pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, num estudo que publicaram sobre a Ritalina.

"Estudantes usam medicamentos estimulantes para melhorar o desempenho acadêmico, especificamente para aumento da concentração e organização, e para permanecer acordado por mais tempo para estudar", afirmam.

Diante desse cenários, esses cientistas buscaram responder a seguinte pergunta: a Ritalina sequer funciona, em primeiro lugar, para melhorar o desempenho cognitivo de pessoas saudáveis, de forma confiável?

Substância não aumenta foco e pode induzir excesso de confiança, mostra pesquisa

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Neuroética: a ética x o uso de nootrópicos e melhoradores cognitivos farmacológicos


A “neurocosmética” avança a galopes. Alguns trabalhos científicos propõem respostas aos anseios do homem por substâncias que melhorem o desempenho da mente. Alguns autores são mais enfáticos, ao concluir que determinadas substâncias podem engendrar os desejados benefícios à memória, atenção e humor. 

Por exemplo, um grupo japonês crava que a l-teanina, composto encontrado naturalmente no chá verde, “claramente tem um efeito pronunciado na performance da atenção e no tempo de reação em voluntários saudáveis e normais com tendência a maior ansiedade", após ensaio clínico num grupo de universitários.

Outro retrato dessas afirmações incisivas é a conclusão de uma dupla de cientistas de Oxford e Harvard, após revisar estudos sobre uma substância totalmente diferente. Dessa vez, uma droga controlada – e com efeitos desconhecidos em longo-prazo – chamada modafinila.

Nas palavras desses pesquisadores, “quando avaliações complexas são utilizadas, a modafinila parece gerar melhorias na atenção, funções executivas e aprendizado de modo consistente” em pessoas saudáveis, sem déficits cognitivos.

É claro que essas conclusões também podem ser contestadas. E devemos sempre considerar os riscos envolvidos. Porém, se fôssemos assumir que essas substâncias são mesmo vantajosas ao nosso desempenho mental, é legítimo ou ético usá-las? 

Como diz o filósofo Mário Sérgio Cortella, “ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: (1) quero?; (2) devo?; (3) posso? Nem tudo que eu quero, eu posso; nem tudo que eu posso, eu devo; e nem tudo que eu devo, eu quero”. Embora soe atrativo, por exemplo, que a l-teanina ou a modafinila melhorem a atenção, será que podemos usá-loa? 

A modafinila é um fármaco controlado – não é possível usá-lo sem prescrição médica. Ainda que, mesmo assim, pudéssemos usá-la, os riscos de um medicamento controlado à saúde provavelmente não compensariam eventuais "benefícios" que foram observados apenas em curto-prazo. 

Mas podemos livremente usar a l-teanina: ela é mais concentrada no chá verde do tipo ‘matchá’ e também é vendida como suplemento alimentar. Mas devemos usá-la para melhorar a atenção? É ético?

A discussão é ainda mais nebulosa ao considerarmos, por exemplo, que 73% de um grupo de estudantes de Medicina analisados em uma pesquisa já usam o café propositadamente para dar um ‘upgrade’ na capacidade intelectual. Bom, a cafeína melhora algumas funções cognitivas e o humor em situações de fadiga. E ninguém torce o nariz para quem bebe um cafezinho para espantar o sono e render mais no trabalho – ou seja, melhorar o desempenho mental. 

Então, seria condenável suplementar a l-teanina (o tal composto do chá verde), por exemplo, para aumentar a atenção? Ou talvez a l-tirosina, um aminoácido (encontrado em alimentos), que “parece melhorar a performance cognitiva de forma eficaz, em particular em condições estressantes ou que demandam muito da cognição”, para parafrasear o resumo de um artigo.

Ao mesmo tempo, o consumo de álcool, substância que também afeta o cérebro, o comportamento e o intelecto, é socialmente aceito. O álcool, porém, tem efeitos negativos: pode “resultar em prejuízos às funções executivas de planejamento, memória operativa e flexibilidade cognitiva” e em danos à estrutura do cérebro. Se o álcool é tolerado em nossa sociedade, por que seria condenável utilizar, por exemplo, a Bacopa monnieri – erva tradicionalmente empregada há milênios para beneficiar a memória e que, segundo pesquisas, poderia ter efeitos neuroprotetores?

A neuroética e o uso responsável de melhoradores cognitivos

Em artigo de opinião na Nature, cientistas falam sobre "uso responsável de drogas melhoradoras da cognição pelos saudáveis"

É claro: são muitas as variáveis envolvidas nesses questionamentos. Respostas simplistas não encerram a questão. Junto com a Neurocosmética, tem crescido a Neuroética. Cientistas têm escrutinizado os aspectos éticos envolvidos no uso de nootrópicos e ‘smart drugs’. 

Um grupo de especialistas conceituados – Barbara Sahakian (Universidade de Cambridge), Henry Greely (Stanford University), John Harris (The University of Manchester), Ronald C. Kessler (Harvard Medical School), entre outros – publicou um artigo de opinião na prestigiada revista Nature (imagem acima). Eles clamam pelo “uso responsável de melhoradores cognitivos pelos saudáveis”. 

“A sociedade deve responder às demandas crescentes pelo melhoramento cognitivo. Essa resposta deve começar rejeitando a ideia de que ‘melhoramento’ é uma palavra suja”, argumentam. “O melhoramento cognitivo tem muito a oferecer aos indivíduos e à sociedade, e uma resposta social apropriada envolverá tornar esses melhoramentos disponíveis enquanto se administram seus riscos”, escrevem. 

Para eles, as drogas podem até parecer diferentes de outros métodos “naturais”, como alimentação e exercício, também usados para melhorar as funções mentais, já que alteram a função do cérebro. “Mas, na realidade, qualquer intervenção que melhora a cognição [também altera a função cerebral]. Pesquisas recentes têm identificado mudanças neurais benéficas provocadas pelo exercício, nutrição e sono (...)”, argumentam. 

Será que essas substâncias seriam uma forma de trapacear? “No contexto de esportes, o melhoramento do desempenho através de fármacos é, de fato, trapaça. Mas, é claro, é trapaça porque é contra as regras. Qualquer bom código de regras precisaria distinguir os métodos de melhoramentos cognitivos permitidos hoje, desde ter professores particulares a cafés espressos duplos, dos novos métodos, se eles precisam ser banidos”. 

Os pesquisadores reconhecem algumas preocupações éticas, como segurança. Para eles, os prós e os contras dessas intervenções devem ser colocados na balança – e isso exige mais estudos científicos para, por exemplo, analisar possíveis efeitos colaterais em longo prazo. “Reivindicamos uma abordagem baseada em evidências para a avaliação dos riscos e benefícios dos melhoramentos cognitivos”, escrevem eles.

Outra preocupação é a liberdade. Imagine se substâncias para aumentar o intelecto fossem disseminadas na sociedade. Será que isso abriria margem para empregadores exigirem o uso delas por seus funcionários, por exemplo? “Um exemplo hipotético é o de uma droga extremamente segura que permitisse cirurgiões salvar mais pacientes. Seria errado exigir essa droga para cirurgias arriscadas?”, questionam os especialistas. 

Para eles, a solução está na construção de políticas que proíbam esse tipo de coerção, exceto em situações muito específicas, como na hipótese do cirurgião. “Empregadores, escolas ou governos não devem exigir, em geral, o uso de melhoradores cognitivos”, consideram eles.  

Uma última preocupação ética é a justiça. Imagine concurseiros que competem por um número limitado de vagas de emprego. Alguns têm acesso, durante a preparação para uma prova, a um nootrópico hipotético com bom perfil de segurança e capaz de melhorar o aprendizado. Outros não têm acesso – talvez por recursos financeiros. “Seria injusto permitir alguns, mas não todos, os estudantes de usar melhoradores cognitivos”, argumentam os pesquisadores. 

Para eles, a solução deve passar novamente por políticas que governem o uso de melhoradores cognitivos. Essas políticas “em situações competitivas devem evitar exacerbar inequidades socioeconômicas (...)”. Eles consideram até mesmo que eventuais disparidades podem ser mitigadas “concedendo a cada participante da prova acesso livre a melhoradores cognitivos” – o que soa utópico, e, reconhecem eles, poderia até criar uma pressão indireta pelo uso de substâncias que melhorem o desempenho cognitivo. 

"Precedente" em outras áreas da Medicina, segundo autores na Nature

Outra questão: diante de pacientes que desejam aumentar o rendimento intelectual, será que médicos podem ou devem prescrever uma droga capaz de melhorar a cognição? Para os pesquisadores, isso dependerá da filosofia do profissional. Médicos que entendem a Medicina como forma de curar os doentes, e não de melhorar os saudáveis, irão desaprovar. 

Contudo, “aqueles que enxergam a Medicina de forma mais ampla, como forma de ajudar pacientes a viver melhor ou atingir seus objetivos estariam abertos para considerar esse tipo de pedido”, dizem os cientistas. “Há certamente um precedente para essa visão mais ampla em alguns ramos da Medicina, como Cirurgia Plástica, Dermatologia, Medicina do Esporte e Medicina da Fertilidade”. Todas essas são áreas que visam ‘aprimorar’ pessoas saudáveis ou ampliar e otimizar suas capacidades naturais.

Diante de tudo isso, os autores desse artigo da Nature concluem que: 

“Como todas as novas tecnologias, o melhoramento cognitivo pode ser usado de uma forma positiva ou negativa. Nós devemos acolher novos métodos de aprimorar nossa função cerebral. Num mundo em que o tempo de trabalho e o tempo de vida estão aumentando, ferramentas de melhoramento cognitivo – incluindo as farmacológicas – serão cada vez mais úteis para aumentar a qualidade de vida e estender a produtividade no trabalho, assim como afastar o declínio cognitivo normal (relacionado à idade) e patológico. 

Melhoradores cognitivos seguros e efetivos beneficiarão ambos indivíduo e sociedade. Mas seria também insensato ignorar problemas que o uso de tais drogas poderia criar ou exacerbar. Com isso, assim como em outras tecnologias, precisamos pensar e trabalhar duro para maximizar seus benefícios e minimizar seus danos”.

Como Aumentar os Níveis de Dopamina Naturalmente?

O que é a dopamina?
A dopamina é um neurotransmissor, isto é, um tipo de mensageiro químico. Assim como hormônios enviam mensagens para vários órgãos, neurotransmissores carregam recados de um neurônio a outro. No caso da dopamina, ela tem muito a ver com nossos níveis de motivação - a nossa persistência em ir além, buscar concretizar nossas ambições e desejos, realizar nossos sonhos. 

Ela também cumpre muitas outras funções. Sabe-se que a dopamina tem um papel em regular nossos níveis de atenção, nosso controle motor... Em meu vídeo (confira abaixo), explico melhor sobre para quê serve a dopamina, de forma bem simples:

E como manter níveis saudáveis de dopamina? Ou até mesmo aumentar os níveis de dopamina? Existem algumas coisas em nosso estilo de vida que podemos fazer:

1. Consuma l-tirosina

A
l-tirosina, um nutriente, serve como matéria-prima para seu cérebro produzir dopamina. Enzimas em seu corpo transformam a l-tirosina em dopamina. Ou seja: você precisa desse nutriente para manter bons níveis de dopamina.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Conheça a 2ª edição do livro "Turbine seu Cérebro"


Os segredos da neurociência para um intelecto mais afiado!


Como otimizar ao máximo a capacidade intelectual? 

Há alguma forma de garantir um raciocínio mais ágil e coerente? Ou de aumentar a atenção e foco em determinada tarefa? Podemos fazer algo para ter uma memória mais afiada ou para aprender habilidades com mais facilidade? 

Que hábitos estão em nosso alcance - como em nosso estilo de vida - para melhorar nosso bem-estar e humor ou para preservar a saúde do cérebro ao longo da vida? 

São essas as perguntas que a segunda edição do livro "Turbine seu Cérebro" responde. 


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Conteúdo: nootrópicos e estilo de vida

Para trazer a você uma edição mais atualizada, precisa e rica, foram meses de pesquisas sobre os nootrópicos. Essas são substâncias diversas como suplementos, fitoterápicos e fármacos - que supostamente melhorariam a memória, concentração e o desempenho mental.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

7 suplementos e fitoterápicos que podem ajudar a reduzir o estresse, segundo pesquisas


Você acorda e percebe que não ouviu o seu despertador tocar e agora está atrasado para o trabalho! Sirenes tocam em sua mente: você entra em modo de emergência e tenta se arrumar o mais rápido possível. Pronto - você mal acordou e seu corpo já está sofrendo com o estresse.

A visão da psicologia sobre o estresse - e como ele afeta seu cérebro
O estresse vem do inglês stress, que significa "pressão" ou "tensão". Segundo artigo publicado no Jama, experimentamos estresse psicológico quando sentimos que não temos recursos suficientes para superar ou suportar as exigências que recaem sobre nós [1]. Daí, nos sentimos ameaçados - sobrecarregados ou, justamente, sob pressão.

Essa reação pode até ser útil. No exemplo do seu atraso para o trabalho, o estresse te dá o pique para se arrumar na correria. Mas com inúmeras fontes de estresse - boletos, abacaxis que aparecem de surpresa para serem solucionados, prazos, excesso de trabalho e por aí vai - temos um problema.

Instala-se o estresse crônico, que afeta seu corpo e também prejudica a saúde mental, afetando o humor e a cognição. Segundo a Mayo Clinic, o estresse crônico está associado a [2]:
  • Ansiedade
  • Depressão
  • Problemas digestivos
  • Dores de cabeça
  • Doenças cardíacas
  • Insônia
  • Ganho de peso
  • Problemas de concentração e memória - o hipocampo, parte do cérebro que é crucial para gravar informações e para o aprendizado é altamente sensível ao estresse [3].
Pandemia aumentou índices de estresse 
Inclusive, a situação se agravou com a pandemia da covid-19. Novos ingredientes somaram-se à receita do estresse, como o isolamento social, reajustes na rotina e o medo em relação ao futuro. Pesquisa norte-americana, de maio de 2020, mostrou que houve um aumento significativo de estresse sobre o emprego e a economia [4].

Como reduzir o estresse, afinal? Existem suplementos que ajudem?