sexta-feira, 14 de maio de 2021

Efeitos do Alpha-GPC: o que é, mecanismo, eficácia e segurança

OBS: esse artigo discute a literatura científica e usos do alpha-GPC e seu conteúdo é meramente informativo. Não use nenhum suplemento ou medicamento sem recomendação médica.

Uma visão geral da colina e fontes de colina


Não há como falar do alfa-glicerilfosforilcolina (alpha-GPC ou alfa-GPC) sem falar da colina, nutriente essencial e crucial para a saúde do cérebro. A colina é a matéria-prima para fabricar acetilcolina – mensageiro químico envolvido com o aprendizado e memória – e de fosfatidilcolina, um componente da membrana que reveste os neurônios. A colina também exibe efeitos neuroprotetores e influenciaria a expressão de genes importantes para o aprendizado e processamento de memórias [1].

Daí porque a colina tem sido alvo de tantos estudos. Maior consumo de colina na dieta foi associado com melhor memória verbal e memória visual em pessoas saudáveis, numa pesquisa publicada no American Journal of Clinical Nutrition [2]No mesmo periódico, um trabalho recente identificou que maiores consumos de colina e fosfatidilcolina foram associados com melhor desempenho em testes de fluência verbal e memória. “Maior ingestão de fosfatidilcolina foi associada com menor risco de incidência de demência”, concluíram os pesquisadores [3].

Alimentos ricos em colina – em geral na forma de fosfatidilcolina – incluem a gema do ovo, grãos integrais, fígado, soja e frango. Entre os suplementos de colina, há os sais de colina – como bitartarato de colina, cloreto de colina e citrato de colina – que demonstram ser “menos eficazes em aumentar os níveis de colina circulantes, comparado a moléculas envolvidas na via biossintética da colina, como a lecitina (uma fonte de fosfatidilcolina)” [4], [5].

Por isso, suplementos de lecitina de soja – que fornecem fosfatidilcolina – são “12 vezes mais eficazes que sais inorgânicos de colina em aumentar os níveis circulantes de colina e manter os níveis elevados por uma duração mais prolongada (12 horas versus 30 minutos”[6]. Outra forma altamente biodisponível de colina é justamente o alfa glicerilfosforilcolina (alpha-GPC). Em jovens saudáveis, o uso de 500 mg de alpha-GPC mais que dobrou os níveis de colina circulantes, comparado ao placebo.[5]

O que é o alpha-GPC? - definição

O alpha-GPC é uma fonte de colina e um composto intermediário na via de “fabricação” de acetilcolina e fosfatidilcolina. Ocorre naturalmente em nosso corpo e também está presente em alimentos, como vísceras[7] e gema de ovo[8] e em menor teor na soja[9]. Nos Estados Unidos, o Alpha-GPC é vendido como um suplemento alimentar, com alegações de melhora das funções mentais - exemplo ao lado.

Já em alguns países europeus, o alpha-GPC é vendido como medicamento  sob prescrição – como o Gliatilin, na Itália, indicado para “distúrbios cognitivos primários ou secundários dos idosos, caracterizados por déficits de memória, confusão e desorientação, diminuição da motivação e iniciativa e redução das habilidades de atenção”. Pesquisas na Internet mostram que o alpha-GPC é comercializado por farmácias de manipulação no Brasil. Aparentemente o Alpha-GPC está regulado como suplemento alimentar pela Anvisa[10], mas a legislação é pouco clara.

Mecanismos de ação

Após a ingestão oral, o alpha-GPC “é convertido em fosforilcolina, uma forma metabolicamente ativa de colina, capaz de alcançar os terminais sinápticos colinérgicos, onde aumenta a síntese (fabricação) e liberação de acetilcolina”, segundo pesquisadores[11]. Em outras palavras, acredita-se que o alpha-GPC estimule a produção do neurotransmissor acetilcolina. Exemplo dessa ação: o alpha-GPC consegue reverter os problemas de memória e atenção causados pela escopolamina, uma droga anti-colinérgica[12].

Foto: Arquivo BioQui

A colina, cujos níveis são alavancados pelo alpha-GPC, ainda pode ser aproveitada para fabricar fosfatidilcolina – como vimos, uma peça-chave da membrana que reveste os neurônios. A integridade de tal membrana é fundamental para a transmissão de mensagens nervosas e formação das sinapses[13].

O efeito do alpha-GPC em elevar os níveis de colina é duradouro – até 30 horas, em testes pré-clínicos[14] e é superior ao da citicolina, quando se utilizam as mesmas doses pela via intramuscular, em humanos[15]. Em pacientes com demência vascular moderada, o uso de 1 g/dia de alpha-GPC por 3 meses mostrou-se mais eficaz que o uso de 1 g/dia de citicolina (ambos via intramuscular) em melhorar testes psicométricos e sintomas[16].

Efeitos cognitivos do alpha-GPC

Há algumas evidências que apontam que o alpha-GPC poderia beneficiar pacientes com doenças neurodegenerativas – indicação aprovada pelas agências reguladoras de países europeus. Por exemplo, um ensaio clínico publicado no Journal of Alzheimer Disease comparou pacientes com Alzheimer que receberam 1200 mg/dia de alpha-GPC associado a 10 mg/dia de donepezila (um medicamento convencionalmente usado nesses pacientes, que  atua impedindo a destruição da acetilcolina), com pacientes que usaram apenas a donepezila. Os pesquisadores concluíram que os pacientes sob a combinação tiveram melhora dos sintomas comportamentais e psicológicos. Enquanto o combo de alpha-GPC e donepezila reduziu significativamente os distúrbios de humor (depressão, ansiedade e apatia), a severidade e frequência desses transtornos aumentaram no outro grupo[17].

“Em resumo, o alpha-GPC tem efeitos significativos na função cognitiva com um bom perfil de segurança e tolerabilidade”, avaliam pesquisadores no Current Alzheimer Research.[18]

Na Europa, o Alpha-GPC (colina alfoscerato) é indicado para tratar distúrbios cognitivos

Outro grupo de pesquisadores – da Universidade da Flórida Central – examinou os efeitos imediatos e em longo-prazo (4 semanas) da ingestão de um suplemento contendo alpha-GPC em jovens saudáveis (em média, com 21 anos de idade) e fisicamente ativos. O suplemento, chamado “CRAM”, foi “desenvolvido para melhorar o tempo de reação e medidas subjetivas de alerta, energia, fadiga e foco” e contém alpha-GPC  (150 mg), bitartarato de colina (125 mg), fosfatidilserina (50 mg), niacina (vitamina B3; 30 mg), piridoxina (vitamina B6; 30 mg), metilcobalamina (vitamina B12; 0.06 mg), ácido fólico (4 mg), L-tirosina (500 mg), cafeína anidra (60 mg), acetil-L-carnitina (500 mg) e naringina (20 mg). [6]

Esse estudo demonstrou que jovens que consumiram o suplemento tiveram melhores tempo de reação – evidenciando um grau maior de atenção e respostas motoras mais ágeis – que o grupo que consumiu placebo, após uma sequência de exercício físico exaustivo. Esse efeito, porém, desapareceu após 4 semanas de uso. Além disso, os jovens que tomaram o “CRAM” tiveram maior  sensação de foco tanto imediatamente quanto após 1 mês de uso – enquanto o grupo que recebeu placebo teve piora do foco em ambos momentos, após sequência de exercício físico exaustivo. Porém, a combinação de vários ingredientes ativos nos impede de isolar os efeitos do alpha-GPC.

Em outro estudo com jovens (idade média de 21 anos), participantes relataram menores níveis de fadiga após a ingestão de 6 mg/kg de alpha-GPC, com níveis significativamente inferiores de cansaço aos de um grupo que recebeu placebo. O grupo que usou alpha-GPC também teve um impacto positivo no humor, superior ao placebo; e responderam de modo mais preciso a um teste de tempo de reação, comparado ao grupo placebo[19]. Porém, há estudos que não demonstraram nenhum efeito do alpha-GPC nas funções mentais de pessoas saudáveis.[20]

Efeitos do alpha-GPC no desempenho atlético

Possíveis benefícios do alpha-GPC no desempenho físico têm sido alvo de inúmeras pesquisas. A suplementação aguda com 600 mg de alpha-GPC aumentou os níveis de GH (hormônio do crescimento) após o exercício físico e o pico de força no supino, comparado ao placebo, em estudo publicado no Journal of the International Society of Sports Nutrition[21]. O uso de 250 mg de alpha-GPC promoveu maior velocidade máxima e potência mecânica em exercícios dos membros inferiores, em outro estudo.[22] Velocidade e força muscular em membros inferiores também foram beneficiadas pelo alpha-GPC em resultados de outra pesquisa.[23].

Segurança

Exibe um bom perfil de segurança, segundo pesquisa publicada na Food and Chemical Toxicology, em que estudiosos afirmam que o NOAEL (Nível Sem Efeitos Adversos Observáveis) do alpha-GPC é de 150 mg/kg durante 26 semanas. Em alguns ensaios clínicos, o alpha-GPC provocou queixas como azia, náusea ou vômito, insônia ou excitação e dor de cabeça.

O seu uso deve ser orientado por um profissional da saúde, sendo desaconselhada a automedicação.

Referências

[1] Neuroprotective Actions of Dietary Choline -- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5579609/

[2] The relation of dietary choline to cognitive performance and white-matter hyperintensity in the Framingham Offspring Cohort – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22071706/

[3] Associations of dietary choline intake with risk of incident dementia and with cognitive performance: the Kuopio Ischaemic Heart Disease Risk Factor Study – https://academic.oup.com/ajcn/article/110/6/1416/5540729?login=true

[4] Lecithin consumption raises serum-free-choline levels – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/69151/

[5] Evaluation of the effects of two doses of alpha glycerylphosphorylcholine on physical and psychomotor performance – https://link.springer.com/content/pdf/10.1186/s12970-017-0196-5.pdf

[6] The effects of acute and prolonged CRAM supplementation on reaction time and subjective measures of focus and alertness in healthy college students – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3009695/

[7] L-α-Glycerylphosphorylcholine – https://pubs.acs.org/doi/pdf/10.1021/ja01184a031

[8] A novel structural analysis of glycerophosphocholines as TFA/K(+) adducts by electrospray ionization ion trap tandem mass spectrometry – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12203251/

[9] Choline and choline esters in human and rat milk and in infant formulas – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8839502/

 

[10] Anvisa, RESOLUÇÃO-RE Nº 26, DE 6 DE JANEIRO DE 2011 – http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2012/res0026_06_01_2012.html

[11] Safety assessment of AGPC as a food ingredient – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21414376/

[12] Effect of L-alpha-glyceryl-phosphorylcholine on amnesia caused by scopolamine – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2071257/

[13] Absorption, tissue distribution and excretion of radiolabelled compounds in rats after administration of [14C]-L-alpha-glycerylphosphorylcholine – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8243501/

[14] Effect of a new cognition enhancer, alpha-glycerylphosphorylcholine, on scopolamine-induced amnesia and brain acetylcholine – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1662399/

[15] A comparative study of free plasma choline levels following intramuscular administration of L-alpha-glycerylphosphorylcholine and citicoline in normal volunteers – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1428296/

[16] A multicentre trial to evaluate the efficacy and tolerability of alpha-glycerylphosphorylcholine versus cytosine diphosphocholine in patients with vascular dementia – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1916007/

[17] The Effect of the Association between Donepezil and Choline Alphoscerate on Behavioral Disturbances in Alzheimer's Disease: Interim Results of the ASCOMALVA Trial – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28035924/

[18] Choline alphoscerate (alpha-glyceryl-phosphoryl-choline) an old choline- containing phospholipid with a still interesting profile as cognition enhancing agent – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24156263/

[19] The Acute Effects Of Alpha-Gpc On Hand Grip Strength, Jump Height, Power Output, Mood, And Reaction-Time In Recreationally Trained, College-Aged Individuals – https://encompass.eku.edu/etd/518/

[20] The effects of alpha-glycerylphosphorylcholine, caffeine or placebo on markers of mood, cognitive function, power, speed, and agility – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4595381/

[21] Acute supplementation with alpha-glycerylphosphorylcholine augments growth hormone response to, and peak force production during, resistance exercise – https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/1550-2783-5-S1-P15

[22] Evaluation of the effects of two doses of alpha glycerylphosphorylcholine on physical and psychomotor performance – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5629791/

[23] The effect of 6 days of alpha glycerylphosphorylcholine on isometric strength – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26582972/

 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Efeitos cognitivos do Pycnogenol (pinheiro-marítimo francês)


OBS: o Pycnogenol é um fitoterápico sob prescrição médica. Este artigo apenas descreve os estudos acerca do Pycnogenol - não devendo ser usado como fins de diagnóstico ou tratamento de doenças ou condições de saúde. Consulte seu médico antes de usar qualquer medicamento.

Definição

Pycnogenol ® é reconhecido como um dos mais poderosos antioxidantes naturais. Esse é o nome comercial para um extrato fitoterápico – derivado da casca de um pinheiro chamado Pinus pinaster (pinheiro-marítimo francês), que é rico em flavonoides. Os principais componentes bioativos do Pycnogenol são: polifenóis, especificamente unidades mono e oligoméricas de ácido cafeico, ácido ferúlico, catequina, epicatequina e taxifolina. Esses compostos são prontamente absorvidos após ingestão oral e seus níveis são observados por até 14 h no sangue [1].

Efeitos vasculares

Entre os muitos efeitos clínicos do Pycnogenol, está a sua ação na dilatação os vasos sanguíneos, por meio de uma melhora da função do endotélio – uma camada de células que regulam o relaxamento dos vasos sanguíneos. É o que descreve um ensaio clínico randomizado e duplo-cego publicado no European Heart Journal. Pesquisadores descobriram que pacientes com doença arterial coronariana que receberam 200 mg/dia de Pycnogenol por 8 semanas tiveram uma melhora significativa do fluxo sanguíneo arterial comparado a um grupo que recebeu placebo [2].

Tal efeito mediado pelo Pycnogenol permitiria um melhor aporte sanguíneo, oxigenação e transporte de nutrientes por todo o corpo, inclusive para o cérebro, segundo pesquisadores da Universidade de Swinburne (Austrália). Eles explicam que “essa ação de relaxar os vasos sanguíneos e torná-los mais flexíveis não apenas beneficia o cérebro, mas também reduz o estresse do sistema cardiovascular e de todo o corpo, devido a uma melhor circulação” [3]. 

Estudos in vitro ajudam a entender a engrenagem por trás dos efeitos vasculares do Pycnogenol. Pesquisadores da Universidade de South Florida descobriram que mecanismo parece ser a estimulação da atividade da sintase endotelial do óxido nítrico – uma enzima que produz óxido nítrico, famoso vasodilatador natural [4]. O Pycnogenol até mesmo se contrapôs aos efeitos vasoconstritores da adrenalina e noradrenalina – envolvidas na resposta de “luta ou fuga” e disparados em situações de medo e estresse. 

Ações antioxidantes

Contudo, essa é apenas uma das faces do Pycnogenol. O extrato conta ainda com uma notável ação antioxidante, capaz de serenar o estresse oxidativo – um fenômeno comparável ao enferrujamento dos metais ou ao apodrecimento das maçãs. No cérebro, a oxidação também ocorre – podendo danificar o DNA, proteínas e membranas. E “o cérebro humano é altamente suscetível aos danos oxidativos”, como afirmam os pesquisadores da Universidade de Swinburne [3]. 

Eles explicam os motivos: o cérebro tem um apetite voraz por oxigênio, que serve para “queimar” glicose e manter sua atividade intensa. Um efeito colateral do seu metabolismo pujante é a produção de substâncias oxidantes. Além disso, o cérebro é riquíssimo em gorduras poliinsaturadas (PUFAs, como ômega 3 e ômega 6). Assim como a manteiga fica rançosa fora da geladeira, essas gorduras também podem sofrer “peroxidação”, quando atacadas por substâncias oxidantes. A menor reserva de mecanismos antioxidantes no cérebro, comparado a outros órgãos, também é apontada como pivô [3]. Antioxidantes, como o Pycnogenol, podem ser úteis em frear o estresse oxidativo. Mas, em termos práticos, o que esse bioquimiquês todo significa? 

O estresse oxidativo tem sido apontado como uma das causas de um declínio da capacidade intelectual. Pesquisadores da Universidade de Chieti-Pescara (Itália) apontam que “é possível que em profissionais estressados e muito ativos o aumento do estresse oxidativo possa ser tanto o resultado quanto a causa de alterações temporárias, subclínicas (...) nas funções cognitivas, que afetam de modo significativo o estilo de vida, desempenho e possivelmente mesmo a vida pessoal (...). A observação de um aumento no estresse oxidativo, associado com alterações mínimas nas funções cognitivas e atenção (...) é um fator interessante a se considerar” [5].

Ensaios clínicos sobre os efeitos do Pycnogenol nas funções cognitivas

Entra em cena o Pycnogenol. Os pesquisadores italianos analisaram os efeitos do uso de 150 mg/dia do extrato nas funções mentais de profissionais saudáveis, entre 35 a 55 anos, com “estresse oxidativo elevado”, mas com outros testes laboratoriais normais. O estudo foi publicado Journal of Neurosurgical Sciences . Após 3 meses, esses adultos tiveram uma queda significativa – na média, 30,4% – nos níveis de substâncias oxidativas, comparado a um grupo que não recebeu Pycnogenol. Somado a isso, o uso do extrato melhorou significativamente a memória de trabalho e episódica, atenção sustentada e funções executivas. Outro impacto positivo do Pycnogenol foi na execução de tarefas do dia-a-dia, como lidar com dinheiro e resolver problemas; além de melhorar a performance em tarefas profissionais. Quem usou Pycnogenol teve melhora em parâmetros de humor, como maior alerta e contentamento e menor ansiedade [5].

Resultados semelhantes foram notados num estudo que avaliou crianças com TDAH. De início, elas apresentavam maiores danos oxidativos no DNA quando comparada a crianças sem esse diagnóstico. Contudo, a suplementação com o Pycnogenol por 1 mês foi capaz de reduzir a oxidação do material genético, além de elevar os níveis totais de antioxidante no plasma. Esses efeitos vieram acoompanhados de uma melhora da atenção em tais crianças [6]. 

Outro exemplo vem de um grupo no outro extremo da idade. Pessoas saudáveis, entre 55 a 70 anos, receberam Pycnogenol por 12 meses. O extrato derrubou em 28% os seus níveis de estresse oxidativo – não houve redução num outro grupo que não recebeu Pycnogenol. Além disso, aqueles que consumiram o extrato por um ano tiveram uma melhora em índices de declínio cognitivo, na execução de tarefas do dia-a-dia e nas funções cognitivas [7]. 

Como se não fosse o bastante, outros pesquisadores descobriram que em um grupo de jovens universitários saudáveis, uma intervenção de 8 semanas com Pycnogenol (100 mg/dia), associado a “um plano de saúde padronizado”, resultou em melhoras na atenção sustentada, memória e funções executivas. Estudantes nesse estudo que estavam usando Pycnogenol também demonstraram melhorias em parâmetros de humor (alerta, contentamento e menor ansiedade) e tiveram um desempenho melhor nos exames universitários que o grupo controle [8].

Ação na inflamação

O leque de ações é ainda mais ampliado ao se considerar que o Pycnogenol exibe alguns efeitos anti-inflamatórios. O extrato aparenta inibir a expressão de genes que causam um aumento da inflamação (ativados por um fator de transcrição chamado NF-κB), segundo estudo ex vivo com plasma humano [9]. 

Conclusão

Esse rol de efeitos tem chamado a atenção dos cientistas, embora sejam iniciais. Os pesquisadores da Universidade de Swinburne concluíram que “evidências convergentes surgem que os efeitos biomoduladores do Pycnogenol melhoram vários mecanismos que podem sustentar a cognição, incluindo processos vasculares, anti-inflamatórios, neuroprotetores e antioxidantes. A pesquisa sobre a capacidade do Pycnogenol em melhorar as funções cognitivas está crescendo com ensaios clínicos preliminares indicando benefícios em vários domínios cognitivos, incluindo atenção, memória e funções executivas” [3].

Referências

[1] Single and multiple dose pharmacokinetics of maritime pine bark extract (Pycnogenol) after oral administration to healthy volunteers – https://link.springer.com/article/10.1186/1472-6904-6-4

[2] Effects of Pycnogenol on endothelial function in patients with stable coronary artery disease: a double-blind, randomized, placebo-controlled, cross-over study – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22240497/

[3] Assessing the Efficacy and Mechanisms of Pycnogenol® on Cognitive Aging From In Vitro Animal and Human Studies – https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fphar.2019.00694/full#B20

[4] Endothelium-dependent vascular effects of Pycnogenol – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9781917/

[5] Pycnogenol® improves cognitive function, attention, mental performance and specific professional skills in healthy professionals aged 35-55 – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24675223/

[6] Effect of polyphenolic extract, Pycnogenol, on the level of 8-oxoguanine in children suffering from attention deficit/hyperactivity disorder – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17015282/

 [7] The COFU3 Study. Improvement in cognitive function, attention, mental performance with Pycnogenol® in healthy subjects (55-70) with high oxidative stress. – https://europepmc.org/article/med/26635191

[8] Pycnogenol® supplementation improves cognitive function, attention and mental performance in students – https://europepmc.org/article/med/22108481

[9] Inhibition of NF-κB activation and MMP-9 secretion by plasma of human volunteers after ingestion of maritime pine bark extract (Pycnogenol) – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1413525/

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

7 suplementos que podem aumentar a inteligência e memória, segundo estudos

Não dá para negar o quanto é tentadora a ideia de ter um cérebro mais afiado, com uma memória de elefante, atenção aguçada e raciocínio engenhoso. É um quadro pintado, por exemplo, por filmes como "Sem Limites" e que dialoga com a ambição humana de aprimorar suas próprias capacidades. E se, como na ficção científica, houvesse uma pílula que ampliasse o poder mental?

"Drogas melhoradoras da cognição são também conhecidas como nootrópicos (...) Foi descoberto que alguns melhoradores cognitivos também melhoram as funções cognitivas em pessoas saudáveis, como memória, funções executivas, criatividade e motivação", analisam estudiosos no periódico Frontiers in Psychiatry.

Sim — algumas pesquisas tem concluído que certas substâncias (descrevi 7 delas nesse post) podem ampliar alguns aspectos da nossa capacidade intelectual. Mas é preciso separar a fantasia da realidade. Não há nada que te transformará num Einstein do dia para a noite, como nos filmes: o impacto dessas intervenções pode ser pequeno. 

E, para muitas delas, ainda faltam estudos robustos para estabelecer sua eficácia. Elas também não são isentas de efeitos colaterais, devendo seu uso ser orientado por um profissional da saúde. Confira a lista dessas substâncias que a ciência aponta como (possivelmente) capazes de beneficiar o cérebro. E não deixe de ler meu livro, Turbine Seu Cérebro, para saber mais!

1. Cafeína

Quem não ama um cafezinho como companheiro de estudos? A ciência confirma que a bebida é uma valiosa aliada em longas sessões de trabalho - e o principal pivô é a cafeína. Ela é um estimulante do sistema nervoso central, que atua de modo a reforçar a transmissão sináptica de dopamina, um mensageiro químico envolvido com motivação e atenção. Também estimula o glutamato, mensageiro químico excitatório.

Um estudo publicado na revista Nutrients mostrou que o consumo de 220 mL de café comum (contendo 100 mg de cafeína) acelera a velocidade de processamento de informações e melhora a concentração. A bebida também adoça o espírito: nesse estudo, quem consumiu café sentiu-se mais bem-humorado, alerta e menos cansado mentalmente.

Mas a cafeína é uma faca de dois gumes: em doses mais altas (acima de 200 mg, em geral), pode estimular demais. Daí, o tiro sai pela culatra: é difícil manter a concentração se você estiver agitado e ansioso. O exagero também cobra o preço na forma de palpitações e espasmos musculares.

2. Óleo de peixe

Não é história de pescador: o óleo de peixe pode "azeitar" as engrenagens do cérebro, podendo beneficiar também o estado emocional. Isso porque o suplemento é fonte de EPA e DHA — que são ácidos graxos que conhecemos como ômega-3, nobres nutrientes para os neurônios.

Primeiro porque o DHA compõe a membrana que recobre os neurônios — uma estrutura gordurosa crucial para formar sinapses e conduzir mensagens nervosas. Os ômega-3 também "serenam" processos inflamatórios (arqui-inimigos da saúde neuronal). É o oposto dos ômega-6, combustíveis e inflamatórios, que consumimos dezenas de vezes mais (especialmente nos óleos vegetais).

"Em particular, os ácidos ômega-3 parecem úteis para prevenir ou melhorar sintomas depressivos em uma baixa dosagem de 1 g/dia; EPA parece mais eficaz que o DHA", concluíram pesquisadores.

Em um ensaio clínico, universitários saudáveis que suplementaram ômega-3 tiveram menor reatividade cognitiva — na prática, embarcaram menos em pensamentos negativos diante de frustrações. Além disso, eles estavam "mais dispostos a empreender mais esforço mental em tomadas de decisão". Outro ensaio apontou melhora da memória após a suplementação de DHA.

3. Antioxidantes

Seus neurônios tem um metabolismo pra lá de acelerado. Esse trabalho no 220V gera toxinas oxidantes —  substâncias capazes de "enferrujar" as células nervosas. Antioxidantes são como enviados da ONU em missão de paz: conseguem neutralizar essas substâncias oxidantes.

Daí não surpreende que alimentos ou suplementos especialmente ricos em antioxidantes, como o cacau, beneficiam as funções mentais.

Outros exemplos: uva e mirtilo (blueberry) — duas frutas em polifenóis (classe de antioxidantes). Em artigo publicado na revista Antioxidants, pesquisadores avaliaram um extrato de 600 mg de uva com mirtilo em universitários saudáveis, num teste que exigia esforço mental prolongado. Eles ficaram mais concentrados e com memória de curto-prazo mais afiada apenas 1 hora e meia após ingerir um extrato de 600 mg dessas frutas.

O Pycnogenol — um extrato fitoterápico rico em procianidinas (outra classe de antioxidantes) — também mostrou-se benéfico. Estudantes jovens usaram o extrato por 8 semanas e, após esse período, tiveram mais pontos testes de humor, concentração, memória e funções executivas. Pesquisadores também relataram que eles tiraram notas mais altas em exames universitários.

4. Colina

A colina, nutriente frequentemente negligenciado, importa. Seu nome a entrega: a colina é matéria-prima para a fabricação do mensageiro químico acetilcolina, envolvida com a memorização; baixos níveis de acetilcolina são encontrados na doença de Alzheimer.

É boa ideia ter colina no prato — ela marca presença na gema do ovo, peixes de água salgada, carnes (como fígado e frango) e também em vegetais como brócolis e soja. Um estudo até associou a maior ingestão de colina com melhor performance em testes de memória verbal e visual. 

Mas é improvável que apenas a colina na dieta induza ganhos apreciáveis. Pesquisas têm focado em suplementos de colina, com resultados promissores. Caso da citicolina, que em estudo recente demonstrou-se eficaz em melhorar a memória de pessoas saudáveis (de 50 a 85 anos, com queixas de esquecimento devido à idade), após 12 semanas de suplementação.

Outro estudo mostrou que entre jovens acadêmicos de Medicina, a suplementação de 500 mg de citicolina por 2 semanas promoveu melhoras da performance psicomotora (que depende do nível de alerta do sistema nervoso e da integração de informações sensoriais e motoras) e na precisão da memória de curto-prazo. O uso de 2 gramas de bitartarato de colina também demonstrou benefícios à coordenação visual-motora.

5. Bacopa monnieri


A Bacopa é uma planta com a fama de aprimorar o raciocínio e o aprendizado. E essa reputação não é de hoje: escritos milenares da Índia classificam a Bacopa como uma "medhya rasayana" — medhya significa intelecto; rasayana significa rejuvenescimento — um tipo de tônico cerebral.

Já nos dias de hoje, a ciência verifica se a Bacopa faz jus à sua fama. Em publicação na Neuropsychopharmacology, pesquisadores demonstraram que o uso da erva por 3 meses melhorou a retenção de novas informações em adultos com idade entre 40 a 65 anos.

Pesquisadores australianos indicaram que a Bacopa também pode beneficiar as funções mentais de jovens. 1 hora após receberem o extrato, adultos desempenharam melhor que colegas que receberam placebo em testes de atenção. Eles também tiveram uma queda de cortisol e melhora do humor.

A Bacopa aparenta afetar o cérebro aumentando os níveis de acetilcolina, via efeitos antioxidantes e estimulando o crescimento de dendritos — "antenas neuronais", que captam mensagens e ajudam na formação de sinapses.

Uma revisão recente sobre a Bacopa apontou, porém, que estudos mais robustos são necessários para confirmar seus efeitos. Por ser considerada um medicamento fitoterápico no Brasil, só deve ser usada sob prescrição médica.

6. L-tirosina

Você já deve ter ouvido falar em dopamina e noradrenalina — são dois mensageiros químicos que regulam nossa motivação, concentração e alerta. É aí que entra a l-tirosina na história: esse nutriente, encontrado em alimentos proteicos, é a matéria-prima para fabricarmos dopamina e noradrenalina. 

Em contextos de intenso estresse mental, como atividades intelectuais extenuantes, podemos demandar muita dopamina e noradrenalina. Alguns cientistas defendem que suplementos de l-tirosina podem ser vantajosos em tais cenários, servindo de "combustível" para fabricar mais dopamina e noradrenalina.

No Journal of Psychiatric Research, cientistas escrevem que "a tirosina de fato parece melhorar a performance cognitiva de maneira eficaz, em particular em situações agudamente estressantes ou que exigem muito da cognição. Concluímos que a tirosina é melhorador da cognição eficaz, mas apenas quando (...) há esgotamento temporário de dopamina e noradrenalina".

Outros cientistas concordam: "(...) a ingestão de tirosina combate prejuízos da memória operativa e processamento de informações que são induzidos por situações exigentes como (...) sobrecarga cognitiva. Os efeitos protetores da tirosina na cognição podem ser explicados por sua capacidade de neutralizar o esgotamento dos níveis de catecolamina [dopamina e noradrenalina]".

7. L-teanina

Não confunda alhos com bugalhos, ou "l-tirosina" com "l-teanina". Essa última é quase que exclusivamente encontrada no chá verde — e, mesmo assim, em quantidades ínfimas — e em suplementos, com teores maiores. 

Sabe-se que a l-teanina exerce forte influência no estado mental: aumenta a frequência de ondas alfa no cérebro, o que indica que induz um estado de tranquilidade, mas sem sedação. Algo como um foco calmo. Um estudo demonstrou que a l-teanina promoveu a sensação de tranquilidade e relaxamento — de modo inclusive superior ao alprazolam (Frontal, indicado para ansiedade).

Uma recente revisão sistemática que examinou os resultados de 9 estudos concluiu que "a l-teanina pode auxiliar na redução do estresse e ansiedade em pessoas expostas a condições estressantes".

E uma mente menos turbulenta consegue focar e raciocinar melhor. Isso pode explicar porque a l-teanina melhorou as funções cognitivas como a fluência verbal e as funções executivas (tomada de decisões, planejamento e concentração) em pessoas estressadas. Além disso, naqueles com alta tendência à ansiedade, a l-teanina melhorou o tempo de reação e a atenção visual, segundo estudo publicado no Journal of Functional Foods.

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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Aniracetam: o que é, mecanismo, eficácia e efeitos colaterais

O que é o aniracetam?

O aniracetam é um fármaco considerado nootrópico - tipo de droga que acredita-se que melhora a inteligência. 

"O aniracetam é membro da classe de drogas dos nootrópicos, que tem um possível efeito de melhorar a cognição", segundo uma descrição publicada no periódico Drugs&Aging.

Esse medicamento foi desenvolvido pela companhia farmacêutica Hoffmann-La Roche no fim dos anos 1970. O aniracetam é prescrito em alguns países europeus para tratar problemas de memória e atenção. No caso do Brasil, essa substância não é aprovada como medicamento.

Comparação com o piracetam

Por sua estrutura molecular, o aniracetam (N-anisoil-2-pirrolidinona) é classificado como um racetam. Assemelha-se estruturalmente ao nootrópico piracetam, que é o protótipo dos racetams.

Uma diferença entre os dois é o que o aniracetam é mais solúvel em gorduras (lipossolúvel), diferente do piracetam, que é hidrossolúvel. Substâncias lipossolúveis atravessam barreiras biológicas com mais facilidade. Daí, especula-se que o aniracetam seria mais eficiente em penetrar no cérebro e agir no sistema nervoso central.

Ao menos em estudos em animais, "de modo consistente, o aniracetam mostrou-se consideravelmente mais potente que o (...) piracetam", segundo revisão de literatura publicada no Drug Investigation

Em camundongos, por exemplo, o aniracetam teve potência dez vezes maior que a do piracetam em corrigir déficits de memória e aprendizado causados por excesso de dióxido de carbono. Isso significa que doses menores de aniracetam foram necessárias para obter um efeito equivalente ao do piracetam.

Quais os efeitos do aniracetam no cérebro?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Ômega-3 (EPA e DHA) como nootrópicos

Ômega-3 (EPA e DHA)

Introdução

EPA e DHA são ácidos graxos poli-insaturados do tipo ômega-3, derivados de fontes marinhas (em especial peixes de águas frias e profundas). São nutrientes essenciais, isto é, que devem necessariamente ser obtidos na dieta. 

O ALA, ômega-3 presente em fontes vegetais (como a chia, por exemplo), precisa ser convertido pelo corpo em EPA e DHA, mas esse processo é pouco eficiente. O óleo de peixe é o suplemento fonte de ômega-3 (EPA e DHA) mais comum.

Mecanismos de ação

O DHA é o ômega-3 predominante no cérebro e acumula-se em regiões cerebrais associadas com memória e aprendizado, como o córtex cerebral e o hipocampo. Exerce papéis fundamentais. O DHA é incorporado na membrana neuronal, onde regula inúmeros processos, como neurogênese, neuroplasticidade, sinaptogênese e fluidez da membrana - o que, por sua vez, tem impactos na velocidade da transdução de sinais nervosos e neurotransmissão.

O EPA pode contribuir com a função cognitiva ao servir de substrato para a fabricação de eicosanoides, que amenizam a neuroinflamação e melhoram o fluxo sanguíneo cerebral devido aos seus efeitos antitrombóticos e vasodilatadores.

Além disso, o DHA melhora o tônus vascular, o que resulta em aumento do fluxo sanguíneo cerebral durante tarefas cognitivas em adultos saudáveis.

Evidências de eficácia

Um ensaio clínico randomizado mostrou benefícios cognitivos em termos de atenção sustentada e velocidade de reação em pessoas saudáveis que suplementaram óleo de peixe (contendo 1,6 g de EPA e 0,8 g de DHA) durante 35 dias. Também houve melhoras no humor, com aumento do vigor e redução de escores de raiva, ansiedade e depressão, segundo o estudo.

Uma revisão de ensaios clínicos, publicada na revista Nutrients, concluiu que:

É improvável que a suplementação com o DHA seja uma "bala mágica" que criará gênios. Porém, por conta da capacidade humana limitada de sintetizar o DHA e do seu papel crítico na função cerebral, parece prudente que indivíduos saudáveis incluam o DHA em suas dietas para um desempenho cognitivo ótimo ao longo de todos os estágios da vida (...).  

Várias organizações internacionais recomendam o consumo de 500 mg ou mais de EPA+DHA por dia ou 2 refeições com peixe ou mais por semana.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Os benefícios do Panax ginseng

Conheça o ginseng HRG80 - versão sofisticada da raiz milenar, usada para aumentar a energia e vitalidade

"Eu nunca me senti tão bem e energizado, em muitos anos. A 'sensação' de energia e foco veio a mim desde o primeiro dia (...). A produtividade e atenção no trabalho têm aumentado intensamente desde então, e eu também durmo melhor". "Eu me sinto muito energizado após usá-lo. É como beber uma xícara de café, para mim".

Os relatos acima, publicados na Amazon, são de usuários entusiasmados com cápsulas de HRG80 - um produto inovador à base de ginseng, da empresa belga Botalys. Nas propagandas, o HRG80 é promovido como uma preparação especial de ginseng, por ser superior e ultraconcentrada em ingredientes ativos "para ajudar você a se sentir energizado o dia todo, todos os dias" (sic).

Eu conversei com Pierre-Antoine Mariage, co-CEO da Botalys e Nicolas Houyoux, diretor de marketing da empresa (a entrevista completa está ao final desta publicação). Eles reforçam as qualidades do ginseng: relatam que, em testes de consumo, usuários do HRG80 relatam sentir mais foco e energia - ao ponto de cortarem seu consumo diário de café. "O ginseng HRG80 definitivamente dá aquela sensação de 'um dia bom e produtivo' se você usá-lo pela manhã", dizem.

Embora o HRG80 tenha sido batizado só em 2018, o uso de raízes de ginseng - de nome científico Panax ginseng - para sentir mais energia e vitalidade não é novidade entre os orientais. Escrituras chinesas milenares já descreviam que o ginseng serve para "manter a mente animada", "melhorar a cognição e inteligência" ou para "encher de vigor o corpo enfraquecido".

"O ginseng é considerado como o rei dos adaptógenos, que são plantas que aumentam a resiliência contra várias fontes de estresse", explicam Mariage e Houyoux. Por conta dessa reputação, o ginseng saiu somente da Ásia e encontrou terreno fértil no Ocidente. Ao lado do HRG80, existem outras dezenas de formulações comerciais à base de ginseng, que vendem-se como remédio para uma vida atarefada, exaustiva e que coloca muitos em parafuso. 

As prateleiras das farmácias brasileiras estão repletas de produtos de ginseng, frequentemente combinado a vitaminas. Algumas bulas dizem que o ginseng serve para "recuperação em casos de fadiga física e mental (como, por exemplo, sensação de desgaste, irritabilidade, dificuldade de concentração)".

Crivo da ciência: ginseng funciona?

Porém, será que, de fato, o ginseng tem bala na agulha? Uma revisão de literatura da Cochrane apontou que o ginseng promove "melhoras de alguns aspectos da função cognitiva, comportamento e qualidade de vida", mas lembrou que ainda faltam evidências contundentes sobre isso.

Já um ensaio clínico mais recente, financiado pela Botalys, investigou especificamente a eficácia das cápsulas de HRG80 para combater sintomas de fadiga e estresse em trabalhadores sobrecarregados. A pesquisa concluiu que a preparação de ginseng beneficiou a "atenção, memória e percepção de estresse após administração única e repetidas por 5 a 12 dias", de modo superior ao placebo.

Gatos e lebres: o que torna o ginseng HRG80 especial

Na imagem, produto comercial vendido no exterior que tem o ginseng HRG80 como seu ingrediente

As conclusões sobre eficácia do ginseng podem ser diferentes entre os estudos - porque nem todo ginseng é igual. As formulações disponíveis na farmácia da sua esquina podem ter variações imensas entre si em termos de perfil molecular, concentração de princípios ativos e, portanto, em efeitos ou resultados.

O ginseng "original", que cresce nas regiões silvestres da China, Coreia e Sibéria está praticamente extinto. A variedade que compramos hoje é de ginseng cultivado em campo - e sua qualidade e potência finais dependem da qualidade do solo, tempo de colheita (quanto mais antiga a raiz, maior sua potência), ataques de pestes, uso de defensivos agrícolas, etc.

É aí que entra o ineditismo do ginseng HRG80, que se vale da hidroponia - técnica em que o solo é substituído por uma solução nutritiva. O HRG80 é cultivado em condições ótimas - num ambiente estéril, protegido, sem uso de agrotóxicos, com controle de temperatura, umidade e luz. Tudo para atingir potência e qualidade similar à do ginseng obtido na natureza.

Técnica de hidroponia: imagem ilustrativa

Esse ginseng ainda é processado com cozimento ao vapor - transformando-o no "ginseng vermelho". O resultado é o HRG80 - segundo pesquisa, com maior concentração e espectro de compostos bioativos, como ginsenosídeos e polissacarídeos de ginseng. Tal coquetel molecular garantiria uma preparação com efeitos mais pronunciados na disposição física e mental.

"Somos capazes de recriar as condições silvestres ideais (...). Nossa variedade de ginseng coreano (Panax ginseng) é chamada de HRG80 e nós a cultivamos em condições específicas a fim de obter um pó de raiz de ginseng rico em constituintes ativos e com um perfil molecular otimizado para propriedades terapêuticas", explicam os membros da Botalys.

É importante enfatizar que o consumo de qualquer preparação de ginseng deve ser orientada por um profissional de saúde - uma vez que ele pode ser contraindicado em algumas situações (por exemplo, para diabéticos) ou interagir com medicamentos eventualmente em uso (por exemplo, antidepressivos).

Entrevista sobre o ginseng HRG80

Confira abaixo a entrevista com Pierre-Antoine Mariage, co-CEO da Botalys e Nicolas Houyoux, diretor de marketing da empresa, sobre o ginseng HRG80. Não há qualquer parceria comercial entre este blog e a Botalys. Também não promovo o HRG80 ou qualquer preparação de ginseng - o objetivo deste artigo é meramente informativo.

O uso do ginseng remonta há muito tempo. Você poderia descrever o seu uso tradicional em países asiáticos? E para que fins as pessoas usam o ginseng na Europa?

Ilustração de raiz de ginseng na China. Johan Niehouf. Via Wikimedia Commons

O ginseng tem sido louvado como uma importante planta medicinal na cultura asiática por milênios. Inicialmente, era considerado um privilégio da nobreza consumi-lo e ele se situa [historicamente] até na origem da fronteira entre China e Coreia. Enquanto originalmente foi considerada uma planta para a longevidade, as autoridades asiáticas hoje reconhecem muitas outras aplicações de saúde específicas, desde saúde cognitiva até sintomas de menopausa.

Surpreendentemente, o potencial do ginseng para a saúde é pouco explorado na Europa. Grande parte dos produtos formulados com ginseng na União Europeia são para fins de energia e/ou para auxiliar no sistema imunológico. Contudo, uma vez que produtos nootrópicos estão tornando-se cada vez mais populares, está crescendo o interesse sobre outras propriedades do ginseng, como foco, ajudar na memória, etc.

Você investigou a eficácia de uma preparação moderna de ginseng (HRG80). Primeiramente, você pode explicar o que é o ginseng HRG80? Como ele é obtido?

Pierre-Antoine Mariage e Paul-Evence Coppée, fundadores da Botalys. Foto via Vives

A potência dos extratos botânicos depende do perfil molecular da planta. O perfil molecular é baseado na variedade da planta e no ambiente de crescimento (acesso à água e a nutrientes, luminosidade, controle de umidade, ataque de pragas, etc.). Numa abordagem clássica, grande parte das variedades [das plantas] são selecionadas pela produtividade e não por suas propriedades medicinais, e as condições de crescimento são diferentes de lugar para lugar e de colheita para colheita.

A BOTALYS decidiu cuidar dessas questões utilizando uma abordagem única. Através da horta vertical em interiores, somos capazes de recriar as condições silvestres ideais para a produção de perfis moleculares otimizados. Além disso, nós desenvolvemos nossas próprias variedades [de plantas] tendo em mente os benefícios à saúde, para de fato obter o melhor fitoterápico.

Nossa variedade de ginseng coreano (Panax ginseng) é chamada de HRG80 e nós a cultivamos em condições específicas a fim de obter um pó de raiz de ginseng rico em constituintes ativos e com um perfil molecular otimizado para propriedades terapêuticas. Como ele é naturalmente rico [em princípios ativos], não precisamos realizar nenhuma extração e apenas cozinhamos o ginseng através de um processo inspirado na tradição coreana (o ginseng vermelho é [obtido através do] ginseng branco cozinhado ao vapor para atingir formas mais biodisponíveis de ginsenosídeos).

Como o ginseng HRG80 se diferencia do ginseng branco típico? Quais são as vantagens da preparação de ginseng HRG80 sobre as preparações tradicionais?

Ginseng vermelho, pó fino obtido após secagem e moagem das raízes cozidas a vapor. Foto via Vives

O ginseng da BOTALYS tem essencialmente 3 principais vantagens:

  • Pureza absoluta: uma vez que nosso ginseng cresce num ambiente interno ultra-purificado, não contém qualquer traço de contaminação, sejam pesticidas, metais pesados ou mesmo solventes (uma vez que nenhuma extração é necessária para obter nosso elevado conteúdo de princípios ativos).
  • Naturalmente rico em ginsenosídeos bioativos: nossa raiz de ginseng é naturalmente rica em ginsenosídeos (> 10%) sem, ser necessário qualquer processo de extração. Levaria mais de 20 anos para obter esse nível na natureza [isto é, em ambiente selvagem]. Para fins de comparação, o ginseng clássico no mercado nutracêutico tem cerca de 3 anos e o ginseng premium tem cerca de 7 anos (quanto mais antigo, mais rico em princípios bioativos).
  • Perfil molecular estável com comprovados benefícios à saúde: nosso ginseng não somente é rico em ginsenosídeos, como também possui tipos de ginsenosídeos bem específicos, uma vez que mais de 80% deles são formas bioativas de ginsenosídeos. De fato, os ginsenosídeos “clássicos” são precursores de formas bioativas de ginsenosídeos e uma fração deles são então convertidas no intestino para tornarem-se biodisponíveis. Formas bioativas são geralmente raras (também chamadas de “ginsenosídeos raros”). Esse perfil único do ginseng oferece uma melhor bioatividade e é consistente de uma colheita para outra, o que leva a benefícios [também] consistentes.

Você descreve que “os participantes desse estudo eram indivíduos ocupados com serviço social – teleoperadores, engenheiros e pessoal de Tecnologia da Informação, que estão constantemente sobrecarregados com tarefas cognitivas e expostos ao estresse social”. Por que estudar o ginseng nesse público em específico?

Ginseng (Panax ginseng) é considerado como o rei dos adaptógenos. Adaptógenos são plantas que aumentam a resiliência contra várias fontes de estresse. 

O principal objetivo do nosso primeiro ensaio clínico foi demonstrar que o ginseng é realmente um poderoso adaptógeno a partir de uma perspectiva clínica. Para esse projeto, trabalhamos com Alexander Panossian, um célebre especialista em plantas adaptógenas, e ele sugeriu testar o produto sob condições de trabalho muito estressantes. Sob essas condições de trabalho, um efeito placebo não é suficiente e você precisa de uma real atividade adaptógena para obter um efeito clinicamente significativo. Por isso, essa foi a "população" analisada.

Quais são os principais resultados do seu estudo? Quais conclusões podem ser tiradas sobre a eficácia do ginseng HRG80, baseado em seus resultados?

Produto HRG80. Foto via Vives.

Há três conclusões que podemos tirar do estudo:

  • HRG80 aumenta significativamente a capacidade de foco sob condições de sobrecarga de trabalho após uma única dose.
  • HRG80 diminui significativamente o estresse percebido sob condições de sobrecarga de trabalho após apenas 5 dias.
  • HRG80 aumenta a performance mnésica (memória) significativamente após 12 dias

Em 2010, uma revisão Cochrane concluiu que “há uma falta de evidências contundentes que mostrem um efeito melhorador da cognição do Panax ginseng em pessoas saudáveis e nenhuma evidência de alta qualidade sobre sua eficácia em pacientes com demência”, principalmente por conta da heterogeneidade dos produtos investigados. Você poderia, por favor, comentar essa conclusão? Por que estudos sobre o ginseng muitas vezes possuem resultados conflitantes?

Como árduos defensores da fitoterapia baseada na ciência, só podemos concordar com a Cochrane nesse quesito. A ampla heterogeneidade das preparações de ginseng e a qualidade bem frequentemente medíocre só pode levar à resultados clínicos conflitantes. Se um estudo utiliza um produto com amplo espectro (ou seja, sem extração de moléculas específicas), pode se beneficiar de todos os constituintes ativos, mas o perfil molecular varia a cada colheita (consequentemente, a eficácia produto varia de um lote para outro). 

Se o estudo utiliza um extrato, a riqueza de princípios ativos é estável, mas o perfil molecular pode ainda assim variar. Além disso, você perde alguns dos princípios ativos (por exemplo, se você purificar ginsenosídeos, você perde a maior parte de polissacarídeos do ginseng, chamados de ginsans).


Isso está na essência da nossa abordagem, uma vez que oferecemos uma planta pura, potente e de amplo espectro, com um perfil molecular consistente. Sempre usamos a mesma variedade de ginseng, desenvolvida sob as mesmas exatas condições, levando a um perfil molecular padronizado e ideal, e portanto a benefícios consistentes à saúde.

Como é usar o ginseng HRG80, subjetivamente? O que as pessoas relatam?

Executamos um teste de utilização com 160 usuários para comparar as diferenças nos efeitos percebidos. Interessantemente, consumidores não apenas relataram um aumento significativo de energia (comparado ao grupo placebo), mas também um sono melhor e uma redução no consumo de café. Então, o consumo de HRG80 definitivamente dá a sensação de “um dia bom e produtivo” se você usá-lo pela manhã.

Você declarou um conflito de interesse, uma vez que você é co-CEO na Botalys SA. Isso deveria despertar algum ceticismo acerca do estudo?

Na verdadeira Ciência, transparência é chave. Mesmo que nosso estudo tenha sido executado por terceiros, demos suporte financeiro aos experimentos e, portanto, nos sentimos na obrigação de mencionar isso na publicação final. Desejamos definir um novo padrão não apenas em termos da qualidade dos produtos, mas também em termos de ética, para um melhor futuro nutracêutico.

O ginseng HRG80 é exportado para outros países?

América do Norte e Ásia são atualmente nossos principais mercados.

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